Memórias Póstumas de Brás Cubas - Vestibular1

Memórias Póstumas de Brás Cubas

Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis

 

Capistrano de Abreu, noticiando a publicação do livro, perguntava: ‘As Memórias Póstumas de Brás Cubas são um romance?’ […] respondia já o defunto Brás Cubas […] que sim e que não, que era romance para uns e não o era para outros.
Machado de Assis, prólogo da terceira edição.

Memórias Póstumas de Brás Cubas – parte I

Viagem em torno da própria vida
Apesar de inaugurar em 1881 tanto a fase realista de Machado de Assis quanto o próprio Realismo, Memórias Póstumas de Brás Cubas é marcado pelo fantástico e absurdo, a começar pelo título (como memórias podem ser póstumas?) e pela dedicatória (“ao verme que primeiro roeu as carnes de meu cadáver”).

Esses elementos, somados à óptica do narrador, um defunto autor, que analisa tudo de forma sarcástica e isenta, pois está no reino dos mortos, fazem o texto filiar-se a uma tradição literária do início da era cristã e que já havia alimentado outras obras, como o Auto da Barca do Inferno: a sátira menipeia.

Memórias Póstumas de Brás Cubas: a crítica, portanto, é a grande preocupação desse livro. No entanto, não é por causa dela, nem mesmo do aproveitamento da visão pessimista da existência, que a obra pode ser considerada como típica do Realismo. De fato, supera os limites dessa escola e torna-se universal.

Os julgamentos feitos pelo morto vão-se tornar mais eficientes graças a outros ingredientes, como a quebra da linearidade narrativa garantida pela digressão, metalinguagem e intertextualidade.
Além de contribuírem para a intemporalidade do texto – que pode ser resultado ou do ponto de vista da morte ou mesmo da análise psicológica, que impede um suceder cronológico –, garantem a intenção de impossibilitar o envolvimento do leitor com a narração, para que a visão da realidade seja a mais objetiva possível.

Memórias Póstumas de Brás Cubas: a personagem principal dessas memórias sempre se mostrou de forma nada idealizada já a partir da infância, em que é apresentada como traquinas, mimada e vingativa. Suas estripulias fazem-na assemelhar-se a outra criança, o Leonardo de Memórias de um Sargento de Milícias.

É interessante notar já nessa fase muitas temáticas ácidas do autor. A primeira manifesta-se por meio do moleque Prudêncio, escravo constantemente humilhado pelo menino Brás Cubas. Mais tarde, quando ganha a liberdade, ao invés de conseguir o pão com o suor de seu próprio rosto, compra um escravo e descarrega nele tudo o que havia recebido do sinhozinho.

Essa atitude, aparentemente paradoxal, acaba exibindo um quadro cruel de nossa civilização, fortemente ajustada na exploração do homem pelo homem. Prudêncio, assim como Juliana, de O Primo Basílio, acaba legitimando um sistema injusto, pois, apesar de ter sido vítima dele, quando assume determinado poder, não luta por melhorá-lo, apenas repete e reforça os erros imperantes.

Outro elemento cruel, ainda na mesma temática do absurdo, ocorre durante uma festa que o pai de Cubas oferece para celebrar a queda de Napoleão. Em um dado momento, o menino ouve a conversa de dois sujeitos sobre a negociação de escravos.
Não parece fazer sentido como a mesma sociedade que se reunia para homenagear a restauração da liberdade, o mesmo grupo que se dizia adepto do Liberalismo, vivia escusamente da escravidão.

Memórias Póstumas de Brás Cubas: mais outro aspecto, comum em toda a obra, surge nessa comemoração. O pai do protagonista a dá inspirado aparentemente em ideais nobres.
No entanto, o que ele quer é exibir-se diante da nata fluminense. Usando a mesma metáfora do narrador, embaixo de grandes bandeiras sobrevivem pequenas, muitas vezes até por mais tempo do que as outras. É o tema do espadim do menino Cubas: nem pensa em grandes ideais – quer é curtir seu brinquedo. Essa busca egoísta por brilho, escondida em atos nobres, é constante no romance.

Ainda nesse mesmo episódio fica-se conhecendo Eusébia e o Dr. Vilaça, flagrados pelo vingativo menino em situação vexatória atrás de uma moita. Esse será um mote a ser retomado. Por enquanto, fica marcada na mente do leitor a peraltice que foi o escândalo da criança em gritar no meio de todos o que havia visto.

Memórias Póstumas de Brás Cubas: o próximo passo da narrativa é a adolescência, quando o memorando conhece a cortesã Marcela. Cegado pela paixão libidinosa, quase dilapida a fortuna da família para saciar a sede dessa esperta espanhola. Mostra-se, mais uma vez, a temática da exploração.

Para evitar uma ruína, o rapaz é mandado a Portugal para estudar Direito. Essa viagem é bastante curiosa, pois nela encontra-se um louco – um tipo comum na obra. Outro aspecto digno de nota é a amizade que o jovem estabelece com o capitão do navio. Quando a esposa deste morre, podemos perceber o quão complexo é Cubas, pois mostra, em certos momentos, um coração sensível.

Brás tem um desempenho medíocre na universidade, pois está mais preocupado com a boemia do que com os estudos. Ainda assim, ironicamente consegue formar-se, o que lhe traz certa crise, pois é hora de tomar responsabilidade por sua vida. Talvez isso explique a delonga em voltar ao Brasil.

Memórias Póstumas de Brás Cubas: volta à pátria, no entanto, por causa da proximidade da morte de sua mãe. É um capítulo tocante que servirá para uma reflexão capital. O memorando não entende como uma pessoa tão bondosa, que nunca desejou o mal de ninguém, foi morrer de uma doença tão cruel quanto o câncer.
Estabelece-se a outra ponta da temática do absurdo: o lado existencial. Que lógica a vida tem?

Memórias Póstumas de Brás Cubas: derrubado, isola-se em Tijuca. Lá conhece Eugênia, chamada ironicamente pelo narrador de “flor da moita”, já que era filha do Dr. Vilaça com D. Eusébia. Há um leve enlace amoroso, que não se desenvolve, pois o protagonista não é forte o suficiente para romper três barreiras: ela é bastarda, pobre e coxa.
Vê-se, de forma bem realista, que o amor tem limites. Vê-se, também, mais uma vez, certa perplexidade diante da inteligibilidade da existência: por que bonita, se coxa? Por que coxa, se bonita?

Essa aventura amorosa é deixada de lado, pois o pai do personagem principal apresenta-lhe uma proposta interessante: Virgília. Casar-se com ela seria uma forma de garantir uma excelente carreira política, pois o pai da moça, o Conselheiro Dutra, possuía muita influência. Mais uma vez está em ação o desespero humano por brilho social.

No entanto, não age. Deixa-se, assim como Leonardo e Macunaíma, levar passivamente. Resultado: perde sua noiva para Lobo Neves, muito mais ambicioso e ativo.
Brás Cubas e Virgília tempos depois voltam a se encontrar.

Apesar de ela já ser uma senhora casada, o triângulo amoroso estabelece-se. O narrador fica mais uma vez intrigado quanto às leis da vida: quando eram noivos, não havia amor; agora que está casada com outro é que surge esse sentimento.

Memórias Póstumas de Brás Cubas: o adultério começa perigosamente a dar na vista. É por isso que os dois arranjam uma casinha para encontrarem-se sossegadamente. E para cuidar dela contratam D. Plácida, ex-agregada da família de Virgília. É mais um momento para Machado de Assis dedicar-se à análise da condição humana.

D. Plácida, ao perceber que serviria de medianeira para os amantes, sofre uma crise de consciência. É por isso que não trata bem Cubas no início, o que dá a ele certo desconforto. No final, ela acaba adaptando-se à nova condição, mais ainda quando recebe uma gorda quantia, suficiente para lhe garantir uma velhice tranquila.

Além disso, o protagonista apazigua sua própria consciência com uma cínica reflexão de que o vício é o estrume da flor-virtude. Ou seja, é um pecado grave utilizar-se da miséria da velha senhora. No entanto, foi assim que a tirou da mendicância. Combina-se, pois, toda uma rica temática ligada ao pessimismo e à exploração da miséria.

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