Marília de Dirceu de Tomás Antônio Gonzaga I

Marília de Dirceu de Tomás Antônio Gonzaga I

 

Marília de Dirceu de Tomás Antônio Gonzaga – parte I

Marília de Dirceu de Tomás Antônio Gonzaga I

Marília de Dirceu de Tomás Antônio Gonzaga I – Introdução: Numa breve introdução ao Neoclassicismo como estilo da época, podemos afirmar que este estilo representa o momento de coesão e revelância da doutrina clássica originada na Renascença e que alcança a sua estruturação perfeita na literatura francesa do século XVII.

Do ponto de vista histórico, o século XVIII é o século das luzes, momento em que se desenvolve uma visão científica do mundo. A ciência e o racionalismo constituem as luzes com que se costuma caracterizar o século. A razão ilumina, ilustra; daí as palavras iluminação e ilustração que caracterizam as manifestações culturais do momento, o conjunto das tendências características. No campo da literatura, o Neoclassicismo representa, nas diversas literaturas europeias, uma generalizada reação contra o Barroco, sob o irresistível impulso do pensamento racionalista dominante em toda a Europa a partir do século XVIII.

Como fruto desse iluminismo, um bom exemplo na literatura é a poesia satírica, largamente difundida na época, e de que As Cartas Chilenas podem funcionar como um bom exemplo, na nossa literatura.

Sem nos prendermos à “tirania cronológica” podemos dizer que o Neoclassicismo como estilo de época foi inaugurado, oficialmente, em Portugal, com a criação da Arcádia Lusitana, em 1756, e vai-se prolongar até 1825, quando Garrett publica o poema narrativo de feição romântica, Camões. No caso do Brasil, há um pequeno atraso com relação às delimitações “oficiais”, sem nenhum critério estritamente literário: o início é marcado pela data de 1768, com a publicação das Obras Poéticas, de Cláudio Manuel da Costa, estendendo-se até 1836, quando se dá a implantação oficial do Romantismo, com os Suspiros Poéticos e Saudades,

Marília de Dirceu de Tomás Antônio Gonzaga I: a obra de Tomás Antônio de Gonzaga, se enquadra exatamente nesse estilo de época: o Neoclassicismo ou por outros chamado de Arcadismo. Sua primeira edição, constando apenas da Parte I (23 liras), foi editada em Lisboa, em 1792, saindo a Parte II, também em Lisboa, em 1799. Com relação à Parte III, que muitos julgam apócrifa, Rodrigues Lapa considera autêntica a edição de 1812, da Impressão Régia.

Marília de Dirceu de Tomás Antônio Gonzaga I – Características marcantes da obra:

1) Uma das mais exploradas características barrocas foi, sem dúvida, a suntuosidade e, de certo modo, a complicação, principalmente da forma exterior (cf. cultismo), além de empanar e perturbar a limpidez e lógica do ideário clássico. Daí o sentido pejorativo que teve o Barroco naquela época.

Um dos postulados básicos de Neoclassicismo é exatamente a reação ao preciosismo e confusão do estilo barroco, ou seja, o Neoclassicismo significou antes de tudo, como a própria palavra explicita, um retorno ao equilíbrio, à simplicidade da linguagem e de ideias da literatura clássica quinhentista e greco-latina.

A imitação dos modelos clássicos volta à tona, e a razão, mais uma vez, tem dias de glória. Esse racionalismo, essa fundamentação racionalista, na literatura configurada na aceitação e volta ao pensamento e cultura clássica, têm confirmação de autores da época, como Filinto Elísio, que aconselhava:

“ Lede, que é tempo, os clássicos honrados;
Herdai seus bens, herdai essas conquistas,
Que em reinos dos romanos e dos gregos
Com indefeso estudo conseguiram.

Vereis então que garbo, que facúndia
Orna o verso gentil quanto sem eles
É delambido e peco o pobre verso.
Lede, que é grande cegueira esse descuido.”

Marília de Dirceu de Tomás Antônio Gonzaga I: Tomás Antônio Gonzaga, como “o mais árcade de nossos árcades” leu “esses clássicos honrados” e se mostra impregnado deles em muitas liras de sua Marília de Dirceu. Aí está a linguagem estereotipada da mitologia, do retrato da mulher ideal que, no fundo, são decorrências do imperativo da razão e da lógica: se um princípio qualquer era válido para os antigos (porventura autoridades do assunto), tinha que sê-lo também para os novos. Se os antigos usaram uma determinada forma poética e a cultivaram, o mesmo deveriam fazer os novos. Daí a estereotipia de linguagem e também de assunto.

Assim, é como poeta integrado no espírito neoclássico e arcádico que Gonzaga, uma das maiores expressões literárias da época, descreve Marília: mulher nívea, de cabelos longos e louros. É assim que Gonzaga descreve Marília na primeira lira da Parte I. Não importava que Marília fosse brasileira e morena, como o poeta a descreverá na lira seguinte (I, 2). Era, talvez, mais importante estar integrado no espírito e convenções do Arcadismo.

“Os teus olhos espalham luz divina,
A quem a luz do Sol em vão se atreve;
Papoula, ou rosa delicada, e fina,
Te cobre as faces, que são cor de neve.

Os teus cabelos são uns fios d’ouro;
Teu lindo corpo bálsamos vapora.
Ah! não, não fez o Céu, gentil Pastora,
Para glória de Amor igual tesouro.

Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!”

Sem dúvidas, outras descrições idealizadas como esta podem ser notadas no livro. É só ler com atenção e espírito crítico.

Mas, como falamos, outro postulado estético, racionalmente aceito na época, era a mitologia. Seria ocioso mostrar os valores e referências mitológicas no livro, dada a presença avassaladora dos deuses do Olimpo, principalmente Cupido com suas setas mortais e Vênus que está sempre cotejada com Marília, a quem esta sempre vence pela beleza divinal:

“O destro Cupido um dia Por fazer pensar a todos
Extraiu mimosas cores No seu liso centro escreve
De frescos lírios,e rosas, Um letreiro, que pergunta:
De jasmins, e de outras flores. ‘Este espaço a quem se deve?’

Com as mais delgadas penas Vênus, que viu a pintura,
Usa de uma, e de outra tinta, E leu a letra engenhosa,
E nos ângulos do cobre Pôs por baixo: ‘Eu dele cedo;
A quatro belezas pinta. Dê-se a Marília formosa'”

Outro excelente exemplo, em que o poeta perpassa a sua visão do mundo filtrada pela ótica mitológica, é a lira 25 (Parte I).

2) O Racionalismo é outro elemento decorrente da volta ao passado clássico. Destacamo-lo aqui, dada a sua importância como principal esteio da ideologia neoclássica. Já falamos atrás, da complicação do pensamento, da linguagem, das ideias do estilo barroco. A esta complicação se opôs a lógica – clara, límpida, cristalina do Neoclassicismo, que se revela pela simplicidade de raciocínio, que é claro e lógico, como se pode entrever na argumentação da Lira VIII (Parte I):

“Já viste, minha Marília, As grandes Deusas do Céu
Avezinhas, que não façam Sentem a seta tirana
Os seus ninhos no verão? Da amorosa inclinação.

Aquelas, com quem se enlaçam, Diana, com ser Diana,
Não vão cantar-lhes defronte Não se abrasa, não suspira
De mole pouso, em que estão? Pelo amor de Endimião?

Todos amam: só Marília Todos amam: só Marília
Desta Lei da Natureza Desta Lei da Natureza
Queria ter isenção? Queria ter isenção?

Se os peixes, Marília, geram Desiste, Marília bela,
Nos bravos mares, e rios, De uma queixa sustentada
Tudo efeitos de Amor são. Só na altiva opinião.

Amam os brutos ímpios, Esta chama é inspirada
A serpente venenosa, Pelo Céu; pois nela assenta
A onça, o tigre, o leão. A nossa conservação.

Todos amam: só Marília Todos amam: só Marília
Desta Lei da Natureza Desta Lei da Natureza
Queria ter isenção? Não deve ter isenção.”

3) O Bucolismo na poesia arcádica é também uma decorrência da volta ao passado clássico quinhentista e greco-latino. Fundamentado nos autores bucólicos, o Neoclassicismo fez dessa matéria uma de suas principais temáticas poéticas. A poesia pastoril ou bucólica, sem dúvida, não é apenas um postulado estético a que devia seguir o poeta. Chegou mesmo a representar uma idealização da vida, inclusive, numa tentativa de identificação com os modelos gregos, os poetas arcádicos chegaram a usar nomes de pastores: Gonzaga (Dirceu), Cláudio (Glauceste/Alceste), Basílio da Gama (Termindo Sipílio).

A própria criação de arcádias (daí o nome Arcadismo para este estilo de época) mostra muito bem essa idealização da vida campesina.
Mostrar o bucolismo de Marília de Dirceu é demonstrar o óbvio, dado o predomínio quase que total da atmosfera pastoril nas liras, sobretudo na Parte I:

“Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
Que viva de guardar alheio gado;
De tosco trato, d’expressões grosseiro,
Dos frios gelos, e dos sóis queimado,
Tenho próprio casal, e nele assisto;
Dá-me vinho, legume, fruta, azeite;
Das brancas ovelhinhas tiro o leite,
E mais as finas lãs, de que me visto.
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!

Eu vi meu semblante numa fonte,
Dos anos inda não está cortado:
Os Pastores, que habitam este monte,
Respeitam o poder do meu cajado:
Com tal destreza toco a sanfoninha,
Que inveja até me tem o próprio Alceste:
Ao som dela conserto a voz celeste;
Nem canto letra, que não seja minha.

Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!

Irás divertir-te na floresta,
Sustentada, Marília, no meu braço;
Ali descansarei a quente sesta,
Dormindo um leve sono em teu regaço.

Enquanto a luta jogam os Pastores,
E emparelhados correm nas campinas,
Toucarei teus cabelos de boninas,
Nos troncos gravarei os teus louvores.

Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!” (Lira 1)

4) Convívio com a Natureza. Aceitando o conceito de arte como imitação da natureza, os autores neoclássicos procuram valorizá-la, recriando-a através de escrições em que era embelezada em seus aspectos considerados apoéticos. A natureza dos árcades era, pois, a verossímil e não a real, de natureza universal e aceita como a ideal. Sem dúvida, o convívio com a natureza se fundamenta numa postura de bastante voga na época: o “fugere urbem” (=fugir da cidade), que é exatamente a busca da simplicidade manifestada através do bucolismo.

Muitas vezes, a natureza chega a exercer o papel de confidente, como nos sonetos de Cláudio Manoel da Costa, onde a natureza participa da desventura amorosa do poeta, escutando as suas lágrimas e recolhendo os seus soluços:

“Grutas, troncos, penhascos da espessura,
Se o meu bem, se a minha alma em vós se esconde,
Mostrai, mostrai-me a sua formosura.”

Marília de Dirceu de Tomás Antônio Gonzaga I: Em Gonzaga, se a natureza não exerce o papel de confidente como em Cláudio, está presente de modo avassalador, como cenário dos seus idílios e devaneios amorosos, a ponto de transformar a íngreme e montanhosa Vila Rica em doces e amenos campos de pastagens (“lócus amoenus”), onde vivem os pastores e seus rebanhos. A presença da natureza nas liras é uma constante: a natureza verossímil, idealizada – não a verdadeira, como se pode notar na lira 5 (I):

“Aqui um regato Mas como discorro?
Corria sereno Acaso podia
Por margens cobertas Já tudo mudar-se
De flores, e feno: No espaço de um dia?

A esquerda se erguia Existem as fontes,
Um bosque fechado, E os feixos copados;
E o tempo apressado, Dão flores os prados,
Que nada respeita, E corre a cascata,
Já tudo mudou. Que nunca secou.

São estes os sítios? São estes os sítios?
São estes; mas eu São estes; mas eu
O mesmo não sou. O mesmo não sou.

Marília, tu chamas? Marília, tu chamas?
Espera, que eu vou Espera, que eu vou.”

5) Manifestações Pré-Românticas. É fato incontestável o caráter transitório do Arcadismo ou Neoclassicismo, principalmente com poetas da categoria de um Bocage ou de um Gonzaga. Assim, “ao mesmo tempo em que se busca o primado absoluto da razão, cultiva-se o sentimento, a sensibilidade, o irracionalismo” (Afrânio Coutinho) – características tipicamente românticas. Vimos atrás o retrato estereotipado de Marília. Vejamos agora como o poeta se desprende dos clichês e convenções arcádicas, numa visível atitude romântica (I, 2):

“Pintam, Marília, os Poetas Porém eu, Marília, nego,
A um menino vendado, Que assim seja Amor; pois ele
Com uma aljava de setas Nem é moço, nem é cego,
Arco empunhado na mão; Nem setas, nem asas tem.

Ligeiras asas nos ombros, Ora, pois, eu vou formar-lhe
O tenro corpo despido, Um retrato mais perfeito
E de Amor, ou de Cupido Que ele já feriu meu peito;
São os nomes, que lhe dão. Por isso o conheço bem.”

Marília de Dirceu de Tomás Antônio Gonzaga I: E o que dizer do tom confessional e plangente, da sensibilidade e emoção, da cor local existente em muitas liras do livro? – Sem dúvida, são características decisivamente românticas. É o Romantismo que está chegando. Não se pode, absolutamente, dizer que o poeta está preso às limitações neoclássicas. As asas da imaginação e da liberdade criadora estavam nascendo! Com mais um pouco, o poeta estaria navegando por esferas nunca dantes navegadas: a esfera do sonho e da imaginação; da emoção e do subjetivismo, que se revelam sobretudo na Parte II, onde Gonzaga vai se libertando de Dirceu e chega mesmo a predominar sobre Marília.

Assim, concluindo, podemos dizer que a poesia neoclássica em Gonzaga “apresenta duas faces contrastantes e complementares: quando imita os moldes clássicos e quinhentistas, é arcádica propriamente dita, ou neoclássica; quando reflete as novas inquietações que preparavam a eclosão do Romantismo, é pré-romântica ” (Massaud Moisés).

Marília de Dirceu de Tomás Antônio Gonzaga I – O estilo de Gonzaga nas liras: No prefácio à Marília de Dirceu (Lisboa, 1957), Rodrigues Lapa, comentando o estilo de Gonzaga, afirma que “não é a persistência dos elementos tradicionais da poesia, mais ou menos pessoalmente elaborados, que nos dão definitivamente o seu estilo. Este consiste sobretudo nas novidades sentimentais e concepcionais que trouxe para uma literatura, derrancada no esforço de remoer sem cessar a antiguidade. Um amor sincero, na idade em que o homem sente fugir-lhe o ardor da mocidade, e uma prisão injusta e brutal – foram estas duas experiências que fizeram desferir à lira de Dirceu acentos novos. Estamos ainda convencidos de que o clima americano, mais arejado e mais forte, contribuiu poderosamente para a revelação desse estilo, em que se sentem já nitidamente os primeiros rebates do romantismo e a impressão iniludível das ideias do tempo.”

Partindo daqui, podemos apontar três fatores básicos que contribuíram para a individualidade poética de Gonzaga: o romance com a menina Maria Dorotéia; a prisão injusta e brutal, como inconfidente; e a magia da natureza e do clima tropical.

Aqui vale ressaltar também a influência de Cláudio Manoel da Costa (Glauceste ou Alceste, nas liras) a quem o poeta devotava grande amizade e admiração, e que Antônio Cândido defende como elemento fundamental na criação das liras gonzagueanas: “sem Dorotéia e sem Cláudio não teríamos a sua obra” – a primeira como fonte de inspiração: “o amor”; o segundo como elemento policiador de seus versos: “a técnica”.

A presença de Maria Dorotéia Joaquina de Seixas – sob o nome pastoril de Marília – é fato insofismável; o lirismo amoroso e idílico tecido à volta de uma experiência concreta – a paixão, o noivado, a separação – é igualmente fato inegável e insofismável: o tema do livro é, pois, Marília, sinônimo de Amor – fonte inspiradora do poeta, quer como mulher física e concretamente sentida, quer como uma vaga pastorinha – objeto ideal de poesia que vai e vem como peteca: por isso mesmo, ora é loura, ora morena, como já vimos.

Ademais, sob essa mesma Marília, sentida de carne e osso (cf. I, 14 outras) ou idealizada como esposa dedicada e firme (cf. II, 4), podem esconder pedaços de Lauras, Nises ou Elviras, como revela a Lira 5 da Parte III (confronte-se com I, 1).

 

Continuar lendo o resumo de Marília de Dirceu de Tomás Antônio Gonzaga

Marília de Dirceu de Tomás Antônio Gonzaga I

 

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