Lavadeiras de Cora Coralina

Lavadeiras de Cora Coralina

 

Lavadeiras de Cora Coralina
Meu livro de cordel (São Paulo, Global, 1987) se inicia com um elogio a este tipo de poema, em “Cantoria”:
“Meti o peito em Goiás
e canto como ninguém.
Canto as pedras,
canto as águas,
as lavadeiras, também”.

Aqui Cora Coralina introduz sua própria experiência feminina doméstica na tradição trovadoresca.
Em “Cora Coralina, Quem é você?”, explica:
“Sendo eu mais doméstica / do que intelectual”,
“Sou mais doceira e cozinheira
do que escritora,
sendo a culinária
a mais nobre de todas as Artes:
objetiva, concreta, jamais abstrata
a que está ligada à vida e
à saúde humana”.

Este poema se abre com a belíssima estrofe que insere sua perspectiva feminina na tradição dos seresteiros de sua terra:
“Sou mulher como outra qualquer.
Venho do século passado
e trago comigo todas as idades”.

Em “Errados rumos”, ela se refere à Procissão da Semana Santa, quando “passa a falange dos mortos” e “a sombra dos velhos seresteiros. A flauta. O violão. O bandolim”.
Em Poemas dos becos de Goiás e estórias mais apresenta poemas próximos da prosa, no dizer da própria autora:
“Versos… não / poesia…
Um modo diferente de contar velhas histórias”.

Calmamente, gestos e coisas simples vão sendo transformados em poesia. Cora Coralina canta a beleza das lavadeiras e trabalhadoras comuns, como em “Estas mãos”.

Lavadeiras de Cora Coralina – Todas as vidas
Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço…
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo…

Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho,
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.

Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.

Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.

Vive dentro de mim
a mulher roceira.
– Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos.
Seus vinte netos.

Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha…
tão desprezada,
tão murmurada…
Fingindo alegre seu triste fado.
Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida –
a vida mera das obscuras

Lavadeiras de Cora Coralina

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