Brás Bexiga e Barra Funda - Vestibular1

Brás Bexiga e Barra Funda

Brás Bexiga e Barra Funda de Antônio de Alcântara Machado

Brás Bexiga e Barra Funda de Antônio de Alcântara Machado

Brás Bexiga e Barra Funda de Antônio de Alcântara Machado – Introdução: Informações retiradas do trabalho Modernismo Antônio Castilho de Alcântara Machado d’Oliveira nasceu em São Paulo, a 25 de maio de 1901, filho de ilustre e tradicional família paulistana. Formou-se em Direito pela Faculdade do Largo São Francisco.

Apesar de colaborar periodicamente com artigos sobre cultura no Jornal do Comércio, só tomou contato direto com os modernistas de São Paulo a partir de 1925. Sua estreia literária se deu em 1926, com um livro de crônicas intitulado Pathé-Baby, com prefácio de Oswald de Andrade. Em 1928, participou ativamente da primeira “dentição” da Revista de Antropofagia; após 1929, por divergências ideológicas, afastou-se de Oswald, ao mesmo tempo em que estreitou laços de amizade com Mário de Andrade. Morreu em 14 de abril de 1935, em São Paulo, aos 34 anos de idade.

Alcântara Machado teve seu nome definitivamente consagrado com a publicação dos livros de contos Brás, Bexiga e Barra Funda (1927) e Laranja da China (1928). A maior característica de sua obra está no retrato, ao mesmo tempo crítico, anedótico, apaixonado, mas sobretudo humano, que faz da cidade de São Paulo e de seu povo, com particular atenção para os imigrantes italianos, quer os moradores de bairros mais pobres, quer os que se vão aburguesando. Todo esse painel é narrado no verdadeiro dialeto paulistano resultante da mistura do linguajar do imigrante italiano com o falar do povo brasileiro, que se convencionou chamar de “português macarrônico”, já brilhantemente utilizado por Juó Bananére. Em Brás, Bexiga e Barra Funda, o autor define seus contos como “notícias” e o livro como um “jornal – órgão dos ítalo-brasileiros de São Paulo”.

Transcrevemos, a seguir, um trecho do “editorial” desse “jornal”.
“Do consórcio da gente imigrante com o ambiente, do consórcio da gente imigrante com a indígena nasceram os novos mamelucos. Nasceram os intalianinhos.
O Gaetaninho.
A Carmela.
Brasileiros e paulistas. Até bandeirantes.
E o colosso continuou rolando.
No começo a arrogância indígena perguntou meio zangada:
Carcamano pé-de-chumbo
Calcanhar de frigideira
Quem te deu a confiança
De casar com brasileira?
O pé-de-chumbo poderia responder tirando o cachimbo da boca e cuspindo de lado: A brasileira, per Bacco! Mas não disse nada. Adaptou-se. Trabalhou. Integrou-se.
Prosperou. E o negro violeiro cantou assim:
Italiano grita
Brasileiro fala
Viva o Brasil
E a bandeira da Itália!

Brás, Bexiga e Barra Funda, como membro da livre imprensa que é, tenta fixar tão somente alguns aspectos da vida trabalhadeira, íntima e quotidiana desses novos mestiços nacionais e nacionalistas. É um jornal. Mais nada. Notícia. Só. Não tem partido nem ideal. Não comenta. Não discute. Não aprofunda.

Principalmente não aprofunda. Em suas colunas não se encontra uma única linha de doutrina. Tudo são fatos diversos. Acontecimentos de crônica urbana. Episódios de rua. O aspecto étnico-social dessa novíssima raça de gigantes encontrará amanhã o seu historiador. E será então analisado e pesado num livro.

Brás, Bexiga e Barra Funda não é um livro.
Inscrevendo em sua coluna de honra os nomes de alguns ítalo-brasileiros ilustres este jornal rende uma homenagem à força e às virtudes da nova fornada mamaluca. São nomes de literatos, jornalistas, cientistas, políticos, esportistas, artistas e industriais. Todos eles figuram entre os que impulsionam e nobilitam neste momento a vida espiritual e material de São Paulo.
Brás, Bexiga e Barra Funda não é uma sátira.”

Fonte: NICOLA, José de. Literatura Brasileira das origens dos nossos dias. Ed.15. São Paulo. Scipione.

Brás Bexiga e Barra Funda de Antônio de Alcântara Machado – Os contos:
• Artigo de fundo
• Gaetaninho
• Carmela
• Tiro-de-guerra
• Amor e sangue
• A sociedade
• Lisetta
• Corinthians (2) vs. Palestra (1)
• Notas biográficos do novo deputado
• O monstro de rodas
• Armazém Progresso de São Paulo
• Nacionalidade
Comentário

Francisco Araújo da Costa

Brás Bexiga e Barra Funda – Sinopse: Sendo um livro de contos, existem na verdade vários enredos curtos. Cada um destes contos foca-se em membros dos três bairros paulistanos do título e são neo-realistas. O autor, no prefácio, define o livro como um jornal e os contos como notícias, adicionando ainda mais realismo às histórias.

Brás Bexiga e Barra Funda – Temática: Os habitantes dos três bairros, seu drama e sua comédia humana são o tema desta obra.

Brás Bexiga e Barra Funda – Linguagem: Numa mistura de italiano e português, A. de A.M. registra o linguajar dos habitantes destes bairros.

Brás Bexiga e Barra Funda – Características: Sempre de modo realista (na verdade, neo-realista seria o termo técnico mais correto), o autor mostra a vida da gente pobre e humilde, as “pessoas invisíveis”, como chamou outro autor: tipos humanos comuns, cotidianos, dos bairros do Brás, Bexiga e Barra Funda, imigrantes italianos e seus descendentes.

Brás Bexiga e Barra Funda – Textos

Amor e sangue – Antônio de Alcântara Machado
Sua impressão: a rua é que andava não ele. Passou entre o verdureiro de grandes bigodes e a mulher de cabelo despenteado.

– Vá roubar no inferno, seu Corrado!
Vá sofrer no inferno, seu Nicolino! Foi o que ele ouviu de si mesmo.
– Pronto! Fica por quatrocentão.
– Mas é tomate podre, seu Conrado!

Ia indo na manhã. A professora pública estranhou aquele ar tão triste. As bananas na porta da QUITANDA TRIPOLI ITALIANA eram de ouro por causa do sol. O Ford derrapou, maxixou, continuou bamboleando. E as chaminés das fábricas apitavam na Rua Brigadeiro Machado.
Não adiantava nada que o céu estivesse azul porque a alma de Nicolino estava negra.

– Ei, Nicolino! NICOLINO!
– Que é?
– Você está ficando surdo, rapaz! A Grazia passou agorinha mesmo.
– Des-gra-ça-da!
– Deixa de fita. Você joga amanhã contra o Esmeralda?
– Não sei ainda.
– Não sabe? Deixa de fita, rapaz! Você…
– Ciao.
– Veja lá, hein! Não vá tirar o corpo na hora. Você é a garantia da defesa. A desgraçada já havia passado.

AO BARBEIRO SUBMARINO.
BARBA: 300 réis. CABELO: 600 réis.
SERVIÇO GARANTIDO.

– Bom dia!
Nicolino Fior d’Amore nem deu resposta. Foi entrando, tirando o paletó, enfiando outro branco, se sentando no fundo à espera dos fregueses. Sem dar confiança. Também seu Salvador nem ligou.
A navalha ia e vinha no couro esticado.
– São Paulo corre hoje! É o cem contos!
O Temístocles da Prefeitura entrou sem colarinho.
– Vamos ver essa barba muito bem feita! Ai, ai! Calor pra burro. Você leu no Estado o crime de ontem, Salvador? Banditismo indecente.
– Mas parece que o moço tinha razão de matar a moça.
– Qual tinha razão nada, seu! Bandido! Drama de amor cousa nenhuma. E amanhã está solto. Privação de sentidos. Júri indecente, meu Deus do céu! Salvador, Salvador…- cuidado aí que tem uma espinha – … este país está perdido!
– Todos dizem.
– Nicolino fingia que não estava escutando. E assobiava a Scugnizza.
As fábricas apitavam.

Quando Grazia deu com ele na calçada abaixou a cabeça e atravessou a rua.
– Espera aí, sua fingida.
– Não quero mais falar com você.
– Não faça mais assim pra mim, Grazia. Deixa que eu vá com você. Estou ficando louco, Grazia. Escuta. Olha, Grazia! Grazia! Se você não falar mais comigo eu me mato mesmo. Fala alguma coisa por favor.
– Me deixa. Pensa que eu sou aquela fedida da Rua Cruz Branca?
– O quê?
– É isso mesmo.
E foi almoçar correndo.

Nicolino apertou o fura-bolos entre os dentes.As fábricas apitavam. Grazia ria com a Rosa.
– Meu irmão foi e deu uma bruta surra na cara dele.
– Bem feito! Você é uma danada, Rosa, Xi!…
Nicolino deu um pulo monstro.
– Você não quer mesmo falar comigo, sua desgraçada?
– Desista!
– Mas você me paga, sua desgraçada!
– N-Ã-Ã-O!
A punhalada derrubou-a

– Pega! PEGA! PEGA!
– Eu matei ela porque estava louco, seu delegado!
Todos os jornais registraram essa frase que foi dita chorando.
Eu estava louco, Seu delegado! Matei por isso, Sou um desgraçado!

O estribilho do ASSASSINO POR AMOR (Canção da atualidade para ser cantada com a música do “FUBÁ”, letra de Spartaco Novais Panini) causou furor na zona.

Carmela – Antônio de Alcântara Machado

Dezoito horas e meia. Nem mais um minuto porque a madama respeita as horas de trabalho. Carmela sai da oficina. Bianca vem ao seu lado.
A Rua Barão de Itapetininga é um depósito sarapintado de automóveis gritadores. As casas de modas (AO CHIC PARISIENSE, SÃO PAULO – PARIS, PARIS ELEGANTE) despejam nas calçadas as costureirinhas que riem, falam alto, balançam os quadris como gangorras.

– Espia se ele está na esquina.
– Não está.
– Então está na Praça da República. Aqui tem muita gente mesmo.
– Que fiteiro!
O vestido de Carmela coladinho no corpo é de organdi verde. Braços nus, colo nu, joelhos de fora. Sapatinhos verdes. Bago de uva Marengo maduro para os lábios dos amadores.

– Ai que rico corpinho!
– Não se enxerga, seu cafajeste? Português sem educação!

Abre a bolsa e espreita o espelhinho quebrado que reflete a boca reluzente de carmim primeiro, depois o nariz chumbeva, depois os fiapos de sobrancelha, por último as bolas de metal branco na ponta das orelhas descobertas.
Bianca por ser estrábica e feia é a sentinela da companheira.
– Olha o automóvel do outro dia.
– O caixa d’óculos?
O caixa d’óculos pára o Buick de propósito na esquina da praça.
– Pode passar.
– Muito obrigada.
Passa na pontinha dos pés. Cabeça baixa. Toda nervosa.
– Não vira para trás, Bianca. Escandalosa!

Diante de Álvares de Azevedo (ou Fagundes Varela) o Ângelo Cuoco de sapatos vermelhos de ponta afiada, meias brancas, gravatinha deste tamanhinho, chapéu à Rodolfo Valentino, paletó de um botão só, espera há muito com os olhos escangalhados de inspecionar a Rua Barão de Itapetininga.
– O Ângelo!
– Dê o fora.
Bianca retarda o passo. Carmela continua no mesmo. Como se não houvesse nada. E o Ângelo junta-se a ela. Também como se não houvesse nada. Só que sorri.

– Já acabou o romance?
– A madama não deixa a gente ler na oficina.
– É? Sei. Amanhã tem baile na Sociedade.
– Que bruta novidade, Ângelo! Tem todo domingo. Não segura no braço!
– Enjoada!
Na Rua do Arouche o Buick de novo. Passa. Repassa. Torna a passar.

– Quem é aquele cara?
– Como é que eu hei de saber?
– Você dá confiança para qualquer um. Nunca vi, puxa! Não olha pra ele que eu armo já uma encrenca!
Bianca rói as unhas. Vinte metros atrás. Os freios do Buick guincham nas rodas e os pneumáticos deslizam rente à calçada. E estacam.

– Boa tarde, belezinha…
Quem? Eu?
– Por que não? Você mesma…
Bianca rói as unhas com apetite.
– mDiga uma cousa. Onde mora a sua companheira?
– Ao lado de minha casa.
– Onde á a sua casa?
– Não é de sua conta.
O caixa d’óculos não se zanga. Nem se atrapalha. É um traquejado.

– Responda direitinho. Não faça assim. Diga onde mora.
– Na Rua Lopes de Oliveira. Numa vila. Vila Margarida n. 4. Carmela mora com a família dela no 5.
– Ah! Chama-se Carmela… Lindo nome. Você é capaz de lhe dar um recado?
Bianca rói as unhas.
– Diga a ela que eu a espero amanhã de noite, às oito horas, na rua… não… atrás da Igreja de Santa Cecília. Mas que ela vá sozinha, hein? Sem você. O barbeirinho também pode ficar em casa.

– Barbeirinho nada! Entregador da Casa Clarck!
– É a mesma cousa. Não se esqueça do recado. Amanhã às oito horas, atrás da igreja.
– Vá saindo que pode vir gente conhecida.
Também o grilo já havia apitado.
– Ele falou com você. Pensa que eu não vi? O Ângelo também viu. Ficou danado.
– Que me importa? O caixa d’óculos disse que espera você amanhã de noite, às oito horas no Largo Santa Cecília. Atrás da igreja.

– Que é que ele pensa? Eu não sou dessas. Eu não!
– Que fita, Nossa Senhora! Ele gosta de você, sua boba.
– Ele disse?
– Gosta pra burro.
– Não vou na onda.
– Que fingida que você é!
– Ciao.
– Ciao.

Antes de se estender ao lado da irmãzinha na cama de ferro Carmela abre o romance à luz da lâmpada de 16 velas: Joana a desgraçada ou A odisseia de uma virgem, fascículo 2º.
Percorre logo as gravuras. Umas teteias. A da capa então é linda mesmo.No fundo o imponente castelo. No primeiro plano a íngreme ladeira que conduz ao castelo. Descendo a ladeira numa disparada louca o fogoso ginete. Montado no ginete o apaixonado caçula do castelão inimigo de capacete prateado com plumas brancas. E atravessada no cachaço do ginete a formosa donzela desmaiada entregando ao vento os cabelos cor de carambola.

Quando Carmela reparando bem começa a verificar que o castelo não é mais um castelo mas uma igreja o tripeiro Giuseppe Santini berra no corredor:
– Spegni la luce! Subito! Mi vuole proprio rovinare questa principessa!
E – ráatá! – uma cusparada daquelas.
– Eu só vou até a esquina na Alameda Cclette. Já vou avisando.
– Trouxa. Que tem?
– No Largo Santa Cecília atrás da igreja o caixa d’óculos sem tirar as mãos do volante insiste pela segunda vez:
– Uma voltinha de cinco minutos só… Ninguém nos verá. Você verá. Não seja má.
Suba aqui.

Carmela olha primeiro a ponta do sapato esquerdo, depois a do direito, depois a do esquerdo de novo, depois a do direito outra vez, levantando e descendo a cinta.
Bianca rói as unhas.
– Só com a Bianca…
– Não. Pra quê? Venha você sozinha.
– Sem a Bianca não vou.
– Está bem. Não vale a pena brigar por isso. Você vem aqui na frente comigo. A Bianca senta atrás.
– Mas cinco minutos só. O senhor falou…
– Não precisa me chamar de senhor. Entrem depressa.
Depressa o Buick sobe a Rua Veridiana.
Só pára no Jardim América.

Bianca no domingo seguinte encontra Carmela raspando a penugenzinha que lhe une as sobrancelhas com a navalha denticulada do tripeiro Giuseppe Santini.
– Xi, quanta cousa pra ficar bonita!
– Ah! Bianca, eu quero dizer uma cousa pra você.
– Que é?
– Você hoje não vai com a gente no automóvel. Foi ele que disse.
– Pirata!
– Pirata por quê? Você está ficando boba, Bianca.
– É. Eu sei por que. Piratão. E você, Carmela, sim senhora! Por isso é que o Ângelo me disse que você está ficando mesmo uma vaca.
– Ele disse assim? Eu quebro a cara dele, hein? Não me conhece.
– Pode ser, não é? Mas namorado de máquina não dá certo mesmo.

Saem à rua suja de negras e cascas de amendoim. No degrau de cimento ao lado da mulher Giuseppe Santini torcendo a belezinha do queixo cospe e cachimba, cachimba e cospe.
– Vamos dar uma volta até a Rua das Palmeiras, Bianca?
– Andiamos.

Depois que os seus olhos cheios de estrabismo e despeito veem a lanterninha traseira do Buick desaparecer Bianca resolve dar um giro pelo bairro. Imaginando cousas. Roendo as unhas. Nervosíssima.
Logo encontra a Ernestina. Conta tudo a Ernestina.
– E o Ângelo, Bianca?
– O Ângelo? O Ângelo é outra cousa. É pra casar.
– Hã!…

Brás Bexiga e Barra Funda – Antônio de Alcântara Machado
O monstro de rodas

O Nino apareceu na porta. Teve um arrepio. Levantou a gola do paletó.
– Ei, Bepino! Escuta só o frio!
Na sala discutiam agora a hora do enterro. A Aída achava que de tarde ficava melhor. Era mais bonito. Com o filho dormindo no colo dona Mariângela achava também. A fumaça do cachimbo do marido ia dançar bem em cima do caixão.

– Ai, Nossa Senhora! A, Nossa Senhora!
Dona Nunzia descabelada enfiava o lenço na boca.
– Ai, Nossa Senhora! Ai, Nossa Senhora!
Sentada no chão a mulata oferecia o copo de água de flor de laranja.

– Leva ela pra dentro!
– Não! Eu não quero! Eu… não… quero!…

Mas o marido e o irmão a arrancaram da cadeira e ela foi gritando para o quarto. Enxugaram-se lágrimas de dó.
– Coitada da dona Nunzia!
A negra de sandália sem meia principiou a segunda volta do terço.
– Ave Maria, cheia de graça, o Senhor…
Carrocinhas de padeiro derrapavam nos paralelepípedos da Rua Sousa Lima. Passavam cestas para a feira do Largo do Arouche. Garoava na madrugada roxa.

– … da nossa morte. Amém. Padre Nosso que estais no céu…
O soldado espiou da porta. Seu Chiarini começou a roncar muito forte. Um bocejo. Dois bocejos. Três. Quatro.
… de todo o mal, Amém.
A Aída levantou-se e foi espantar as moscas do rosto do anjinho.
Cinco. Seis.
O violão e a flauta recolhendo da farra emudeceram respeitosamente na calçada.

Na sala de jantar Pepino bebia cerveja em companhia do Américo Zamponi ( SALÃO PALESTRA ITÁLIA – Engraxa-se na perfeição a 200 réis) e o Tibúrcio (- O Tibúrcio … – O mulato? – Quem mais há de ser?)

– Quero só ver daqui a pouco a notícia do Fanfulla deve cascar o almofadinha.

– Xi, Pepino! Você é ainda muito criança. Tu é ingênuo, rapaz. Não conhece a podridão da nossa imprensa. Que o quê, meu nego. Filho de rico manda nesta terra que nem a Light. Pode matar sem medo. É ou não é, seu Zamponi?

Seu Américo Zamponi soltou um palavrão, cuspiu, soltou outro palavrão, bebeu, soltou mais outro palavrão, cuspiu.

– É isso mesmo, seu Zamponi, é isso mesmo!

O caixãozinho cor-de-rosa com listas prateadas (dona Nunzia gritava) surgiu diante dos olhos assanhados da vizinhança reunida na calçada (a molecada pulava) nas mãos da Aída, da Josefina, da Margarida e da Linda.

– Não precisa ir depressa para as moças não ficarem escangalhadas.

A Josefina na mão livre sustentava um ramo de flores. Do outro lado a Linda tinha a sombrinha verde aberta. Vestidos engomados, armados, um branco, um amarelo, um creme, um azul. O enterro seguiu.

O pessoal feminino da reserva carregava dálias e palmas de São José. E na calçada os homens caminhava descobertos.

O Nino quis fechar com o Pepino uma aposta de quinhentão.

– A gente vai contando os trouxas que tiram o chapéu até a gente chegar no Araçá.

Mais de cinquenta você ganha. Menos, eu.

Mas Pepino não quis. E pegaram uma discussão sobre qual dos dois era o melhor:

Friedenreich ou Feitiço.

– Deixa eu carregar agora, Josefina?
– Puxa, que fiteira! Só porque a gente está chegando na Avenida Angélica. Que mania de se mostrar que você tem!

O grilo fez continência. Automóveis disparavam para o corso com mulheres de pernas cruzadas mostrando tudo. Chapéus cumprimentavam dos ônibus, dos bondes. Sinais da santa cruz. Gente parada.
Na praça Buenos Aires Tibúrcio já havia arranjado três votos para as próximas eleições municipais.

– Mamãe, mamãe! Venha ver um enterro, mamãe!
Aída voltou com a chave do caixão presa num lacinho de fita. Encontrou dona Nunzia sentada na beira da cama olhando o retrato que a Gazeta publicara. Sozinha. Chorando.

– Que linda que era ela!
– Não vale a pena pensar mais nisso, dona Nunzia…
O pai tinha ido conversar com o advogado.

A sociedade

Brás Bexiga e Barra Funda – Antônio de Alcântara Machado

– Filha minha não casa com filho de carcamano!
A esposa do conselheiro José Bonifácio de Matos e Arruda disse isso e foi brigar com o italiano das batatas. Teresa Rita misturou lágrimas com gemidos e entrou no seu quarto batendo a porta. O conselheiro José Bonifácio limpou as unhas com o palito, suspirou e saiu de casa abotoando o fraque.

O esperado grito do Cláxon fechou o livro de Henri Ardel e trouxe Teresa Rita do escritório para o terraço.

O Lancia passou como quem não quer. Quase parando. A mão enluvada cumprimentou com o chapéu Borsalino. Uiiiiia – uiiiiia! Adriano Melli calcou o acelerador. Na primeira equina fez a curva. Veio voltando. Passou de novo.

Continuou. Mais duzentos metros. Outra curva. Sempre na mesma rua. Gostava dela. Era a Rua da Liberdade. Pouco antes do número 259-C já sabe: uiiiiia-uiiiiia!
– O que você está fazendo aí no terraço, menina?
– Então nem tomar um pouco de ar eu posso mais?
Lancia Lambda, vermelhinho, resplendente, pompeando na rua. Vestido do Camilo, verde, grudado à pele, serpejando no terraço.

– Entre já para dentro ou eu falo com seu pai quando ele chegar!
– Ah meu Deus, meu Deus, que vida, meu Deus!
Adriano Melli passou outras vezes ainda. Estranhou. Desapontou. Tocou para a Avenida Paulista.

Na orquestra o negro de casaco vermelho afastava o saxofone da beiçorra para gritar:
Dizem que Cristo nasceu em Belém…
Porque os pais não a haviam acompanhado (abençoado furúnculo inflamou o pescoço do conselheiro José Bonifácio) ela estava achando um suco aquela vesperal do Paulistano. O namorado ainda mais.

Os pares dançarinos maxixavam colados. No meio do salão eram um bolo tremelicante. Dentro do círculo palerma de mamãs, moças feias e moços enjoados. A orquestra preta tonitroava. Alegria de vozes e sons. Palmas contentes prolongaram o maxise. O banjo é que ritmava os passos.

– Sua mãe me fez ontem uma desfeita na cidade.

– Não!

– Como não? Sim senhora. Virou a cara quando me viu.

… mas a história se enganou!

As meninas de ancas salientes riam porque os rapazes contavam episódios de farra muito engraçados. O professor da Faculdade de Direito citava Rui Barbosa para um sujeitinho de óculos. Sob a vaia do saxofone: turururu-turururum!

– Meu pai quer fazer um negócio com o seu.

– Ah sim?

Cristo nasceu na Baía, meu bem…

O sujeitinho de óculos começou a recitar Gustave Le Bom mas a destra espalmada do catedrático o engasgou. Alegria de vozes e sons.

… e o baiano criou!

– Olhe aqui, Bonifácio: se esse carcamano vem pedir a mão de Teresa para o filho você aponte o olho da rua para ele, compreendeu?

– Já sei, mulher, já sei.
Mas era cousa muito diversa.

O cav. uff* Salvatore Melli alinhou algarismos torcendo a bigodeira. Falou como homem de negócios que enxerga longe. Demonstrou cabalmente as vantagens econômicas de sua proposta.
– O doutor…
– Eu não sou doutor, senhor Melli.

– Parlo assim para facilitar. Non é para ofender. Primo o doutor pense bem. E poi me dê a sua resposta. Domani, dopo domani, na outra semana, quando quiser. Io resto à sua disposição. Ma pense bem!

Renovou a proposta e repetiu os argumentos pró. O conselheiro possuía uns terrenos em São Caetano. Cousas de herança. Não lhe davam renda alguma. O cav. uff. Com o capital. Arruavam os trinta alqueires e vendiam logo grande parte para os operários da fábrica. Lucro certo, mais que certo, garantidíssimo.
-É. Eu já pensei nisso. Mas sem o capital o senhor compreende é impossível…

– Per, Baco, doutor! Mas io tenho o capital. O capital sono io. O doutor entra com o terreno mais nada. E o lucro se divide no meio.
O capital acendeu um charuto. O conselheiro coçou os joelhos disfarçando a emoção. A negra de broche serviu o café.
– Doppo o doutor me dá a resposta. Io só digo isto: pense bem.

O capital levantou-se. Deu dois passos. Meio embaraçado. Apontou para um quadro.
– Bonita pintura.
Pensou que fosse obra de italiano. Mas era francês.
– Francese? Não é feio non. Serve.

Embatucou. Tinha qualquer cousa. Tirou o charuto da boca, ficou olhando para a ponta acesa. Deu um balanço no corpo. Decidiu-se.
– Ia dimenticando de dizer. O meu filho fará o gerente da sociedade… sob a minha direção si capisce.
– Sei, sei… O seu filho?
– Si. O Adriano. O doutor… mi pare… mi pare que conhece ele?

O silêncio do conselheiro desviou os olhos do cav. uff. Na direção da porta.
– Repito um’altra vez: o doutor pense bem.
O Isotta Fraschini esperava-o todo iluminado.
– E então? O que devo responder ao homem?
– Faça como entender, Bonifácio…
– Eu acho que devo aceitar.
– Pois aceite…

E puxou o lençol. A outra proposta foi feita de fraque e veio seis meses depois..

Brás Bexiga e Barra Funda

O conselheiro José Bonifácio de Matos e Arruda
e senhora
têm a honra de participar a V. Exa.
e Exma. família, o contrato de casamento
de sua filha Teresa Rita com o Sr. Adriano Melli.
Rua da Liberdade, n. 259- C
O Cav. Uff. Salvatore Melli e senhora
têm a honra de participar
a V. Exa. e Exma. família
o contrato de casamento de seu
filho Adriano com a
Senhorinha Teresa Rita de Matos e Arruda.

Rua da Barra Funda, n. 427.

São Paulo, 19 de fevereiro de 1927

No chá do noivado o Cav. Uff. Adriano Melli na frente de toda a gente recordou à mãe de sua futura nora os bons tempinhos em que lhe vendia cebolas e batatas, Olio di Lucca e bacalhau português quase sempre fiado e até sem caderneta.

* Cav. uff. – Título honorífico: Cavaliere ufficciale.

Leia também a biografia de Antônio de Alcântara Machado

Brás Bexiga e Barra Funda de Antônio de Alcântara Machado

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