A barca de Gleyre de Monteiro Lobato II

A barca de Gleyre de Monteiro Lobato II

 

Continuação do resumo A barca de Gleyre de Monteiro Lobato

A barca de Gleyre de Monteiro Lobato II

A barca de Gleyre de Monteiro Lobato II: Trecho VII – Taubaté, 1907
Rangel:
Estou noivo. Pedi no dia 12 a obtive a 15 a mão de Purezinha, filha do Dr. Natividade que te examinou em Aritmética no Curso Anexo, minha prima longe, professora complementarista, loura, branca como pétala de magnólia, linda. Combinamos casar um dia.”

A barca de Gleyre de Monteiro Lobato II: Trecho VIII – São Paulo, 17.1.1920
Rangel:
Tens toda e não tens nenhuma razão. Tens-na no meu caso: não sou literato, não pretendo ser, não aspiro a louros acadêmicos, glórias , bobagens. Faço livros e vendo-os porque há mercado para a mercadoria; exatamente o negócio do que faz vassouras e vende-as, do que faz chouriços e vende-os. E timbro em avisar ao leitor de que não sei a língua. Se por acaso algum dia fizer outro livro, hei-de usar letreiros das fitas: “Contos de Monteiro Lobato, com pronomes por Álvaro Guerra; com a sintaxe visada por José Feliciano e a prosódia garantida no tabelião por Eduardo Carlos Pereira. As vírgulas são do insigne virgulógrafo Nunávares, etc.”

A barca de Gleyre de Monteiro Lobato II: Trecho IX – S. Paulo, 20.2.43
Rangel:
Pois é. Perdi meu segundo filho, o Edgar, um menino de ouro, tal qual o Guilherme. Impossível filhos melhores que os meus, e talvez por isso, foram chamados tão cedo.(…)
Eu não me desespero com mortes porque tenho a morte como alvará de soltura. Solta-nos deste estúpido estado sólido para o gasoso – dá-nos invisibilidade e expansão, exatamente o que acontece ao bloco de gelo que se passa a vapor. (…)
E assim vamos também nós morrendo. Morrendo nos filhos, pedaços de nós mesmos que seguem na frente. Morrendo nas tremendas desilusões em que desfecham nossos sonhos.”

A barca de Gleyre de Monteiro Lobato II: Trecho X – S. Paulo, 27.10.43
Rangel:
Solto agora as minhas cartas a você, e depois você solta as tuas a mim. Outra coisa está me parecendo: que na literatura fiquei o que sou por causa dessa correspondência. Se não dispusesse do teu concurso tão aturado, tão paciente e amigo, o provável é que a chamazinha se apagasse. Você me sustentou firme na brecha e talvez eu te haja feito o mesmo. Fomos o porretinho um do outro, na longa travessia.

A barca de Gleyre de Monteiro Lobato II: Trecho XI – S. Paulo, Véspera de S. João, 1948
Rangel:
(…) Tive a 21 de abril um “espasmo vascular”, perturbação no cérebro da qual a gente sai sempre seriamente lesado de uma ou outra maneira. Depois de 3 horas de inconsciência voltei a mim, mas lesado. A principal lesão foi na vista que no começo me impedia de ler sequer uma frase. As outras perturbações ando agora eu a percebê-las: lerdeza mental, fraqueza de memória e outras “diminuições”. Desci uns pontos.
Não é impunemente que chegamos aos 66 anos de idade.
O que eu tive foi uma demonstração convincente que estou próximo do fim – foi um aviso – um preparativo.
E de agora por diante o que tenho a fazer é arrumar a quitanda para a “grande viagem”, coisa que para mim perdeu a importância depois que aceitei a sobrevivência. (…) Estou com uma curiosidade imensa de mergulhar no Além. (…)
Adeus, Rangel! Nossa viagem a dois está chegando ao fim. Continuaremos no Além? Tenho planos logo que lá chegar, de contratar o Chico Xavier para psicógrafo particular, só meu e a primeira comunicação vai ser dirigida justamente a você. Quero remover todas as tuas dúvidas. Do Lobato
Com esta carta, meio irônica, brincalhona, Lobato despedia-se do amigo Godofredo Rangel, escritor como ele. Doze dias depois, morria durante o sono.
Em seu enterro, os estudantes saíram à rua, agitando faixas sobre a questão do petróleo. E o já consagrado ator Procópio Ferreira, amigo pessoal, fez um discurso onde proclamava:
“Agora, os sem-vergonhas poderão agir à vontade: morreu Monteiro Lobato!”
Um homem e seu estilo:
“Mal comportado que sou , reconheço meu lugar. O bom comportamento acadêmico, lá de dentro, me dá aflição.”

A barca de Gleyre de Monteiro Lobato II: Com estas palavras, o verdadeiro Lobato descartava um sonho acalentado por muitos: o convite para entrar na Academia Brasileira de Letras. E embora você tenha lido acima uns trechos em que fala de Taubaté como “exílio”, “mesmice”, tachando-a de exílio intelectual, era um valeparaibano de verdade. Sua linguagem é um misto de despojamento quando regionalista, e de rebuscamento, indignação, incredulidade (Ver, por exemplo, O Escândalo do Petróleo). Contador de “causos” emérito, Lobato é, antes, um “escarafunchador” de almas, um observador arguto, oscilando entre o que detecta como ridículo, patético, cômico.
É grande grande narra sobre o que conhece bem: suas Itaocas, Oblívions, sobre os caboclos, os Joões Teodoros, os Jecas. Usa constantemente neologismos (Zefernandar é o mais exagerado deles: agir como o narrador José Fernandes de A Cidade e as Serras), cria um mundo de palavras novas, sua cabeça dava piruetas, o mundo era pequeno demais, àquela época, para as ideias incríveis de Lobato.
Crítico, teimoso, fleumático, o escritor foi , antes de tudo, gente. Viveu intensamente, mas viveu errado, num tempo que não era o dele: o Brasil estava, agora, precisando de um bom Lobato. Desde o distribuidor de livros, passando pelo Lobato de Emília, até o Lobato terrível das grandes polêmicas.
Leitor de Eça, de Machado, de Camilo, de todos os grandes escritores, este comedor de içás, orgulho do Vale, devia estar vivendo agora.

A barca de Gleyre de Monteiro Lobato II: Trecho VI – Taubaté, 30.12.1904
Rangel:
“Aqui no exílio a madorra é um mal ambiente que derruba até os mais fortes. Exílio, Rangel, pura verdade! Saltar da libérrima vida estudantina de S. Paulo e cair neste convencionalismo de aldeia, com trabalhos forçados… Sinto-me rodeado de conspiradores; todos tramam o meu achatamento. Tudo quanto mais prezávamos – o nosso individualismo, etc, é crime de lesa-aldeia, de que o vigário, os parentes e as mais “pessoas gradas” nos querem curar. O ideal é fazer de nós mais uma “pessoa grada”, mais um “cidadão prestante”. É arredondar-nos como um pedregulho, lixar-nos todas as arestas – as nossas queridas arestas! Um homem aqui só fica bem “grado” quando se confunde com todos os outros e é irmão do Santíssimo Sacramento. (…)
Logo que cheguei (que cheguei “formado”!) mimosearam-me com uma manifestação; foguetes (Taubaté não faz nada sem foguetes), a banda de música, molecada atrás e oito discursos, nos quais se falou em “raro brilhantismo”, “um dos mais”, “as venerandas arcadas” e outras cacuquices que tive de aguentar de pé firme em casa de meu avô. Eu percebia o jogo: a manifestação era mais dirigida a ele do que a mim, porque ele é um grande visconde e eu não passo dum simples “neto de visconde”. (…)
Não imaginas a estranheza da minha emoção quando estourou lá longe o primeiro foguete e alguém ao meu lado disse: “É a manifestação que vem vindo.” Um foguete soltado por minha causa…” (…) Do teu desolado Lobato.

Leia também a biografia de Monteiro Lobato

 

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