MODELO DE REDAÇÃO
Veja o seguinte tema: "A nova ordem mundial
enfraqueceu ou não o poder político?". Uma "dissertação-modelo" foi por nós elaborada com o propósito de
demonstrar uma das múltiplas formas possíveis de abordagem do tema em questão
e para exemplificar um modo pelo qual um eventual vestibulando pudesse abordar o tema.
Atenção: o texto que se segue, em hipótese alguma, é uma forma única
de se escrever sobre o assunto; ele é simplesmente um modelo, uma sugestão.
TÍTULO : OS NOVOS DONOS DO PODER
Ao longo dos Tempos Modernos, período compreendido entre os séculos XVI
e início do XIX, o poder do Estado sobre a nação era exclusivo e incontestável.
As estruturas econômicas, sociais e culturais ainda não tinham transcendido*
as fronteiras dos estados nacionais. Desconhecia-se qualquer organização
supranacional, com exceção da Igreja Católica, que afrontasse o poder do Rei,
então absolutamente soberano sobre as atividades e comportamentos de seus súditos.
O poder político e jurídico do Estado tinha condições de impor regras e
determinações a empresas, instituições da sociedade civil e também aos
cidadãos. Desobedecer a vontade do "Príncipe*" significava prisão,
represálias e, muitas vezes, até a eliminação física pelo emprego da pena
capital. Na época, portanto, era absolutamente válida a conhecida frase de Luís
XVI, o "Estado sou eu".
Com o desenvolvimento do capitalismo, ampliando, em escala mundial, o comércio
e as aplicações financeiras, o estado nacional se depara com um novo cenário:
sua política econômica, suas decisões jurídicas e institucionais devem, a
partir daí, levar em consideração os interesses e projetos de outras nações.
Na fase mercantilista, a filosofia econômica das nações absolutistas, os
governos impunham barreiras protecionistas para evitar a entrada de artigos
estrangeiros em seu território. A crescente mundialização da economia, já
evidente no século XIX, impedia restrições alfandegárias, pois o país que
evitasse comprar gêneros importados, também não venderia os seus para
os mercados externos. Começava imperar uma lógica econômica
supranacional que sobrepujava* a vontade dos poderes políticos nacionais.
Agora, empresários e investidores, se prejudicados pelo "Príncipe",
operariam em terras estrangeiras, solapando* a economia e as finanças de
seu próprio país. Nascia uma "nova pátria", não mais a definida
por um solo, por uma origem étnica ou por hábitos culturais comuns, mas a
"a pátria do lucro". Para o homem contemporâneo, o "lar
nacional" não mais seria determinado por laços afetivos - patriotismo e
nacionalismo - , mas, isto sim, pelo lugar que permitisse o crescimento econômico
e a ascensão social. O Rei tornou-se cauteloso: perseguir o capital implicava
perdê-lo.
Também a proliferação de idéias e estados liberal-democráticos, criou
um fenômeno até então inédito: a "opinião pública". Os cidadãos
e segmentos sociais, agora menos tutelados* pelo Estado, passaram a exigir
seus direitos e a limitar a prepotência* do Poder. Os governos, agora, só
podiam agir dentro das normas instituídas pelo Direito. O Soberano já não
mais podia ser Déspota*.
Nos anos recentes, a globalização financeira, econômica e a difusão de
hábitos culturais em escala planetária restringiram ainda mais a ação dos
estados nacionais. Hoje, já se fala de uma sociedade civil* internacional.
Antes, crimes e outras atitudes ilícitas levadas a efeito pelos governantes
eram desconhecidos pelos povos; hoje, as redes internacionais de comunicação
informam todos os cidadãos sobre as ações dos poderosos. A condenação moral
tornou-se mundial, inibindo os mandatários* políticos. A produção é
global, escapando progressivamente ao controle do Estado; a circulação de bens
é planetária, dificultando decisões estatais que prejudiquem o livre comércio;
a cada dia se formam organizações não-governamentais que atuam em escala
mundial. Esboça-se*, até mesmo, um Direito Penal internacional, visando punir
crimes contra a humanidade. Não, definitivamente não, se pode dizer "aqui
mando eu". O Estado, sem dúvida, ainda é um aparelho de mando*,
mando este, contudo, compartilhado com outros "donos do poder".
GLOSSÁRIO:
*TRANSCENDER: ultrapassar, superar, ir para um nível superior;
*PRÍNCIPE: a partir da obra de Nicolau Maquiavel, cientista político
do séc. XVI,"Príncipe" significa governante;
*SOBREPUJAR: superar;
*SOLAPAR: minar, sabotar;
*TUTELAR: controlar;
*PREPOTÊNCIA: autoritarismo;
*DÉSPOTA: tirano;
*SOCIEDADE CIVIL: toda comunidade está divida em sociedade política,
o plano das instituições do Estado, e sociedade civil, as organizações
que representam e agrupam os cidadãos desligados do poder público. A polícia,
por exemplo, é uma entidade da sociedade política; um sindicato representa uma
sociedade civil;
*MANDATÁRIOS: governantes;
*ESBOÇAR: rascunho, planejamento inicial;
*APARELHO DE MANDO: a estrutura do poder estatal, ministérios,
secretarias, legislativos, forças armadas, polícia, etc.