Meses de estudos, pilhas de livros e muitas noites em claro
para conseguir ver o nome estampado na lista dos classificados
do vestibular. E depois de muitos desafios a grande decepção:
a escolha do curso ou da própria universidade não foi a
ideal. Você deve estar imaginando que é hora de começar do
zero. Nada disso. Pelo processo de transferência é possível
mudar de habilitação ou de faculdade sem precisar prestar
novo vestibular e abandonar os estudos.
Além do tradicional processo seletivo, as instituições de
ensino superior oferecem aos estudantes uma outra maneira de
ingressar na graduação, o processo de transferência externa
ou interna. Muitos não sabem, mas, segundo o art. 49 da Lei nº
9.394/96 - da LDB (Lei de Diretrizes e Bases), as
universidades devem aceitar a transferência externa de
estudantes regulares, para cursos afins, na existência de
vagas e mediante uma avaliação.
Para
muitos, a transferência é mais uma oportunidade de ingressar
naquela tão sonha universidade. Foi o caso do estudante
Daniel Gomes da Lapa Jr., 25 anos, que não passou no processo
seletivo convencional da USP (Universidade de São Paulo), mas
conseguiu uma vaga no curso de Matemática da instituição
pelo processo de transferência. "Usufruí deste benefício
para alcançar meu objetivo", afirma o estudante.
Obstáculos
Mas o processo de transferência não é uma alternativa
simples. "Embora a transferência seja um direito do
universitário, a lei impõe que seja observado as exigências
da instituição", explica a Coordenadora Geral de Relações
Acadêmicas de Graduação do Ministério da Educação,
Iguatemi Lucena Martins. Ou seja: o aluno regularmente
matriculado em uma instituição de ensino superior
reconhecida pelo MEC pode pleitear uma vaga na faculdade em
que deseja ingressar, desde que atenda os pré-requisitos.
Na maioria das vezes é exigido que o estudante tenha cursado,
no mínimo, o primeiro ano da graduação. Isto ocorre porque
a grade curricular dos cursos varia muito e é preciso
analisar o que o estudante já aprendeu e o que ainda não viu
em sala de aula, para garantir que o processo não prejudique
a formação acadêmica.
Em muitos casos, a transferência pode atrasar o ano de formação
do universitário. Caso as disciplinas não coincidam, o aluno
deverá fazer adaptações das matérias que ainda não faziam
parte de sua grade curricular. Dependendo da instituição,
essas adaptações podem ser realizadas junto com outras
disciplinas. Mas nem sempre isso é possível e o curso poderá
demorar mais do que o período normal de graduação.
"Isso varia de acordo com o nível da antiga faculdade.
Mas, geralmente, poucos créditos são aproveitados, alongando
o tempo do curso em um ou dois semestres", afirma o
assistente de Coordenação da Coordenadoria do Registro Acadêmico
da PUCRS (Pontifícia Católica de Rio Grande do Sul), Seno
Rudi Jung. Desta forma, o processo de transferência pode
trazer alguns "prejuízos" para a formação acadêmica
do universitário. E mais, os danos podem ser ainda maiores
quando a transferência é realizada nos últimos anos da
graduação. Por isso, todo cuidado é pouco.
As conseqüências da transferência devem ser muito bem
avaliadas pelo candidato de acordo com seu objetivo, esteja
ele ligado à opção por uma instituição que detém maior
status, à mudança para uma universidade mais próxima de sua
casa ou trabalho - facilitando a rotina - ou ainda, a uma
troca mais vantajosa do ponto de vista financeiro. Porém,
independentemente dos motivos, é preciso levar em consideração
a qualidade do curso e da instituição desejada.
Além disso, é importante que o candidato faça uma comparação
entre a grade curricular das duas instituições. "Neste
etapa, os centros de atendimentos aos alunos podem ser bons
auxiliadores", garante Jung. Assim é possível avaliar a
possibilidade e, ainda, a situação temporal que deverá ser
enfrentada no processo de transferência. "É preciso
analisar até que ponto isto vai ser prejudicial ao seu
planejamento de conclusão de curso", alerta.
Depois de meses de estudos, seguindo todos estes passos, a
estudante de Jornalismo da IMES (Universidade de São Caetano
do Sul), Tainana Navarro, 21 anos, decidiu desistir da
transferência para a Faculdade Cásper Líbero. "Embora
a mensalidade fosse menor e a qualidade de ensino e as
oportunidades de estágios maiores, o sistema não era
vantajoso. Teria que repetir o primeiro ano da graduação e
ainda fazer adaptação de outras cinco matérias", diz.
"Por falta de tempo, não teria condições de fazer as
adaptações, comprometendo o meu desempenho na graduação",
completa
Já o estudante de Engenharia de Produção Mecânica Fernando
Ângelo D´annolfo, 21 anos, não teve outra saída a não ser
seguir pelo caminho da transferência. Na antiga instituição,
Escola de Engenharia Mauá, o universitário não tinha mais
condições de continuar pagando as mensalidades e ainda
enfrentar o puxado sistema de ensino. "Tive que voltar um
ano do curso para me adaptar a grade curricular da nova
instituição, mas foi a solução que eu encontrei para
resolver os meus problemas", argumenta.
Processo seletivo
Algumas universidades, principalmente as públicas, realizam
uma seleção, similar ao do vestibular, tamanha a concorrência
na disputa das vagas ociosas das instituições. Na USP, por
exemplo, todos os inscritos passam por provas de Língua
Portuguesa e Língua Inglesa. E mais, os candidatos da área
de Humanas respondem questões de Cultura Contemporânea, os
de Biológicas perguntas de Genética e Bioquímica e os
alunos da área de Exatas fazem provas de Física e Matemática.
Ainda não para por aí. Neste processo também tem a segunda
fase, realizada pelas próprias unidades da universidade.
Segundo o diretor de Serviço de Apoio Técnico a Graduação
da USP, Sergio Luiz Brito Orsini, em algumas áreas a concorrência
é maior no processo de transferência do que no vestibular.
"Muitos que pensam que este é um método mais simples,
acabam se prejudicando", alerta.
Além da concorrência, o número de vagas oferecidas no
processo de transferência é bem menor do que as
disponibilizadas no vestibular. Não há, ainda, oportunidades
para todos os cursos. "Isso varia muito de acordo com o
índice de evasão da universidade. Em sua maioria, as ofertas
são bem reduzidas e as concorrências maiores", garante
Iguatemi. Não há como negar, porém, que as possibilidades
de transferências em uma instituição particular são
maiores do que nas públicas. "Em alguns casos as vagas não
são preenchidas", completa.
A adaptação
Se você pensa que depois de ter optado pelo sistema de
transferência e ter ingressado na universidade desejada os
problemas acabaram, está enganado. O principal vilão da história
passa a ser a adaptação. "Um problema que faz muitas
pessoas desistirem no meio do caminho", conta Orsini. Por
isso, estar ciente das circunstâncias que estão por vir e
estar preparado para combatê-las também é muito importante.
Mas as mudanças na rotina e nas regras educacionais não
impediram Daniel de abraçar a oportunidade de estudar na USP.
"Foi e continua sendo difícil a adequação. Hoje, além
da graduação, preciso fazer as adaptações para atingir o
mesmo grau dos demais estudantes. Como se não bastasse, ainda
tem as mudanças com a parte logística: acomodação,
alimentação e locomoção", informa. "São
problemas que existes, porém se você realmente quer algo, não
há empecilho que faça desistir", conclui.
(Envolverde/Universia)
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