O novo presidente da Associação de Dirigentes das Instituições Federais
de Ensino Superior (Andifes), Mozart Neves Ramos, afirmou que a cobrança de
mensalidades em universidades públicas aumentaria o que chamou de
"apartheid no ensino superior" do País. Em entrevista ao Projeto
Universidade Aberta da federal de Santa Catarina (UFSC), Ramos defende a importância
da universidade para o desenvolvimento do país e pede mais recursos para a
expansão de matrículas. Reitor da Universidade Federal de Pernambuco, Mozart
Neves participou da III Cumbre de Reitores das Universidades Públicas
Ibero-americanas, que aconteceu de 25 a 28 de abril, em Porto Alegre (RS).
Pergunta: Como o senhor avalia a evolução da universidade pública
brasileira desde o início da década de 90?
Mozart Neves Ramos - A educação superior cresceu muito desde aquela época,
principalmente na pós-graduação. As universidades têm conseguido, mesmo com
o engessamento do financiamento, melhorar a qualidade do ensino e aumentar a
atuação na sociedade. O setor mais deficitário das instituições é o de
pessoal, as universidades usam verbas de custeio para pagar funcionários
terceirizados. É com muito esforço que conseguimos, hoje, preservar uma
universidade pública, gratuita e de qualidade.
Pergunta: Qual a importância e o compromisso da universidade pública
com o país, hoje?
Mozart Neves Ramos - Na sociedade do conhecimento, a educação superior tem um
papel estratégico. É ela que formará profissionais qualificados, que podem
colocar o país em condições de competir de igual para igual com os
desenvolvidos. Das universidades, sairão aqueles capazes de tornar a sociedade
mais justa e igualitária. Sem dúvida, o compromisso é reafirmar
permanentemente a qualidade e gratuidade do ensino, para diminuir a desigualdade
social e econômica.
Pergunta: O ministro da Educação, Paulo Renato de Sousa, mencionou
a possibilidade de os estudantes pagarem mensalidades de acordo com a renda.
Isso resolveria a questão do financiamento das instituições? Permitiria a
entrada de jovens na universidade?
Mozart Neves Ramos - Todos os estudos, inclusive desde a época em que a
ditadura militar instituiu cobrança nas universidades, mostram que as verbas
vindas da mensalidade cobrem apenas 10% dos gastos. A partir do momento em que o
governo impuser mensalidades, aumentará ainda mais o "apartheid" no
ensino superior brasileiro. Cada vez menos jovens entrarão nas universidades.
De jeito nenhum, nós reitores seremos a favor de um projeto como esse.
Pergunta: De que forma, então, poderia ser aumentada a participação
desses jovens dentro das instituições federais de ensino superior?
Mozart Neves Ramos - Temos que lutar por três pontos principais: o primeiro, é
a expansão das matrículas com recursos públicos; o segundo, é a reposição
permanente de pessoal; e o terceiro, é a melhor utilização das novas
tecnologias para que os cursos superiores cheguem cada vez a mais lugares e
atinjam cada vez mais pessoas, como os presenciais e os de ensino à distância.
Pergunta: Como a Andifes encara a mudança de governo? Existe a
preocupação com a eleição de algum candidato em especial?
Mozart Neves Ramos - Estamos elaborando um documento que reafirma a necessidade
de preservar a universidade pública, gratuita e de qualidade. Esse texto será
apresentado a todos os candidatos. A Andifes estará sempre atenta às ações
do governo que tenham reflexo nas universidades. Seja qual for o candidato
eleito, estaremos atentos.
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