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Quem tem um vestibulando em casa ou ao
alcance dos olhos prevê chuvas e trovoadas para as próximas semanas. A
temporada de disputa de vagas nas universidades públicas e privadas começa no
fim do mês e promete mais desassossego a quase 3 milhões de jovens almas. Pós-adolescentes
e imaturas, mas esclarecidas o suficiente para reconhecer a concorrência cruel
e saber que a completa substituição do vestibular por processos seletivos
menos desgastantes é pouco provável. Mas nem todas as nuvens são cinzentas.
Muitos desses garotos já perceberam como tirar proveito da inquietação na
reta final.
A decoreba anda mesmo fora de moda. Nos últimos anos, as questões dos grandes
vestibulares vêm acompanhadas das fórmulas mais trabalhosas já no enunciado.
Explica-se: os examinadores querem testar se o candidato sabe aplicá-las bem e
não se passou meses sendo um papagaio nota 10. O concurso mudou e hoje o que
interessa é demonstrar poder de raciocínio, síntese e análise de contexto
dos fatos. Vale lembrar que esse é um excelente tubo de ensaio para examinar a
capacidade de tomar decisões em situações tensas. Os exames estão cada
vez menos dependentes de memória e, nesse momento, o melhor é o candidato
reforçar o que tem de positivo.
Candidatos estressados sempre houve, mas a carga ficou pesada demais. Desde que
a globalização e o desemprego se tornaram conceitos palpáveis, os jovens
enfrentam a disputa como se sentissem o peso do mundo nas costas. Com a crise
mundial anunciada às vésperas dos exames, a situação piorou. Nesse caldeirão de pressões entra também a angústia
dos pais, que além da crise da meia-idade passaram a trabalhar mais e a ganhar
menos. Os pais ansiosos apostam tudo no sucesso dos filhos e, em muitos casos,
incentivam a nova geração a seguir o caminho oposto ao deles.
No capítulo das escolhas profissionais, a massa dos candidatos continua optando
pelos três cursos clássicos: Direito, Medicina e Engenharia. Essa conclusão
surge da análise dos números absolutos, em geral camuflada pelas relações
candidato-vaga que parecem indicar booms como Turismo, Publicidade e Propaganda
e Jornalismo. Um cargo de gerência,
por exemplo, pode ser assumido por um administrador, um economista ou um
advogado. Para as empresas interessa menos o que ele aprendeu na graduação
e mais todo o patrimônio adquirido desde o ensino fundamental.
Toda pessoa conta com três especialidades básicas de memória numa classificação
temporal: a de curto prazo, que retém dados por horas ou dias, a de longo
prazo, que armazena dados por longos períodos, e ainda a de trabalho, que só
registra o que interessa por alguns segundos. "O cérebro constrói o mundo
de acordo com os interesses particulares do indivíduo e está mais propenso a
guardar coisas espetaculares, emocionais, do que acontecimentos que não fazem
parte do cotidiano", ensina o neurologista Iván Izquierdo, do Departamento
de Bioquímica da UFRGS. Nada mais natural, portanto, que os estudantes guardem
facilmente o telefone da namorada e esqueçam datas históricas ou fórmulas
matemáticas.
Para manter a memória afiada é preciso estimulá-la sempre. Entre as dicas dos
neurologistas está a observação de detalhes que podem ajudar a lembrar
rostos, nomes ou ocasiões. Até bate-papos descompromissados despontam como
estimulantes do raciocínio porque, numa conversa, a mente está sempre
trabalhando, procurando dados, recordações ou fazendo associações. Além de
prestar atenção às aulas, os jovens devem ler e escrever muito e estar
atentos a tudo, desde um jogo de futebol até uma sessão de música erudita.
Alguns professores apegam-se a jargões, musiquinhas e historietas para ensinar
conceitos mais complicados. De eficiência discutível, o método saiu de moda
porque está ancorado na batida noção da decoreba. Apesar disso, em situações
particulares, ele pode funcionar como recurso adicional. Um dos mais famosos
divulgadores dessa linha é o professor de Física José Inácio Pereira,
conhecido como Pachecão, que gravou um CD com músicas para vestibulandos que já
vendeu mais de 50 mil cópias. O mineiro Pachecão viaja em média duas vezes
por semana para dar aulas em ginásios lotados em todo o país. "Não
adianta só decorar fórmulas, é preciso entendê-las e aprender a
raciocinar", diz.
Outro adepto da criatividade, o carioca Amaureny Mourão leciona História e
compõe sambas-enredo. Sem sair do tom, conseguiu juntar as duas ocupações e
hoje improvisa músicas e adapta canções famosas ao conteúdo das aulas. Foi
assim que criou o "Rap do Mercantilismo" e assumiu o pseudônimo de
Bill, mais sonoro e descontraído. Dons artísticos ajudam, mas não garantem a
atenção de 150 alunos confinados em salas muitas vezes abafadas. O ator
paulistano Eduardo Silva, o serelepe Bongô do programa infantil Castelo
Rá-Tim-Bum,
passa a maior parte do tempo domando marmanjos nas aulas de Biologia do Curso
Anglo. Professor há 13 anos, Dudu recebeu três prêmios de teatro por sua atuação
na peça A Comédia dos Erros, da trupe de Cacá Rosset. Em razão da dupla
competência, ele se movimenta o tempo todo e ocupa o espaço da sala e a atenção
dos alunos. "No começo, achava que eles gostavam da minha aula porque eu
era ator, mas com o tempo percebi que isso ajuda, mas não é tudo", conta
Silva.
Embora recuse o título de showman, o cearense Gilson Sombra faz sucesso no
cursinho Galois, em Brasília. Ele usa o violão para ensinar Física, mas com
parcimônia. "Não transformo minhas aulas em show nem faço brincadeiras
fora do contexto da matéria", conta. Por isso, o instrumento só entra em
cena quando o assunto é acústica. No Curso Objetivo, também no Distrito
Federal, as aulas de Química do professor Ivan Dutra podem terminar na cozinha.
Empenhado em melhorar o rendimento dos alunos, ele recorre até às receitas da
vovó para ensinar a oxidação do ferro. Em Belo Horizonte, a candidata mineira
Cibele Oliveira, de 18 anos, tem acesso a recursos como esse no cursinho, mas não
deixa de manter a rotina diária de estudo dentro de uma estratégia que ela
mesma planejou. Foi assim que a paulistana Aline Fazzolari Dota, de 18 anos,
venceu a maratona do último vestibular com louvor. O nome dela brilha na lista
das dez melhores notas da difícil seleção da Universidade Estadual Paulista
(Unesp). Aline entrou na Faculdade de Medicina, em Botucatu, o curso mais
concorrido do país, e também na Universidade de São Paulo e na Federal de
Santa Catarina.
Ao encontrar um obstáculo, o
aluno deve partir para a próxima pergunta e só retornar ao ponto em que
encontrou dificuldade se houver tempo. Desperdiçar o tempo com uma questão difícil
é arriscar-se a deixar de responder outra pergunta que provavelmente teria
condições de acertar. Nas provas com testes de múltipla escolha, é essencial
reservar algum tempo para preencher o gabarito.
Nesses casos, um recurso duvidoso pode ser utilizado pelos candidatos menos
preparados. Nos derradeiros 5 minutos, alguns alunos tentam apelar para a lógica
e eliminar as questões improváveis. Na maioria das provas, o número de
alternativas corretas é distribuído uniformemente. O estudante tenta contar
aquelas que assinalou sem muita certeza e ver se há mais ou menos o mesmo número
de respostas de cada alternativa. Mas os professores explicam que isso é inútil.
A única certeza que o bom senso pode indicar é que, no intervalo entre a
primeira e a segunda fase dos vestibulares, o aluno deve continuar estudando.
Todo tempo disponível - cinco, dez ou 20 dias - pode fazer diferença na
contagem final. Mantendo a preparação, o candidato chegará ao dia da prova
com a adrenalina a seu favor.
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