Vinícius - Hábito e respeito também. E eu nunca deixei acumular
as coisas. Tem gente que deixa tudo pra última hora. Pra que
economia de esforço? Então, vai fazendo à medida que vem a
lição, à medida que vêm as aulas, vai fazendo...
Folha - Nunca deixar para amanhã o que dá para fazer
hoje...
Vinícius - Porque amanhã pode acontecer alguma outra coisa e
não dar tempo.
Folha - Você desenvolveu algum método de estudo para o
vestibular?
Vinícius - Não, porque encarei o colegial me preparando para a
vida.
Folha - Como assim?
Vinícius - Por exemplo, eu aprendi biologia pra não ser
enganado por nenhum médico. Porque você está num colégio
aprendendo tudo aquilo pra uma finalidade. E a finalidade do
ensino nunca foi o vestibular. Eu só estudava isso para a vida,
para não ser um ignorante. E aí o vestibular veio como
consequência.
Folha - Mas aí você foi o primeiro do Enem também?
Vinícius - Fui o primeiro do Enem. Nem foi fácil, estava doente
no dia. Tinha dor de cabeça, gripe, tive que pegar táxi, almocei
muito cedo para chegar na hora. Comecei a prova e pensei "não
vai dar pé porque aqui estou com metade da minha capacidade".
Folha - Tudo o que você faz é assim, sempre com muita
consciência, ou é só com os estudos?
Vinícius - Com tudo, não gosto de perder o controle sobre o
que eu faço.
Folha - E dá pra ter controle de tudo? Nas relações
pessoais, nas amizades...?
Vinícius - Dá. A gente tem que ficar atento se a pessoa é uma
amiga de verdade ou se também não vale nada, está só te
sugando.
Folha - Você lê muito?
Vinícius - Nestes anos de provas, a única coisa que eu li, fora os
livros da Fuvest, foi jornal.
Folha - E TV, você assiste?
Vinícius - Só os noticiários. Assisto o do Bóris Casoy e o
"Jornal Nacional" porque os dois separados são duas coisas
horríveis. Então, é preciso juntar os dois para conseguir algo útil.
Porque um faz muito comentário infantil, o outro só mostra
baboseira, o que não interessa.
Folha - Qual é o comentário infantil?
Vinícius - O do Boris. "Isso é uma vergonha." Fica toda hora
falando que é uma vergonha. Mas sugere alguma coisa? Não
sugere nada. E o "Jornal Nacional" mostra o cara que está lá
dentro do sertão costurando piaçava. Eu estou querendo saber
disso? Então tenho que assistir os dois pra ter uma idéia.
Folha - Como você acha que a maioria dos estudantes de
classe média, como os do Objetivo, onde você estudou,
encara o ensino, o conhecimento?
Vinícius - Com repúdio. A grande maioria dos meus colegas
pensa: "Ah, estudar não serve pra nada, amanhã tem festa, depois
de amanha tem festa e tem a Copa também". Eu era de uma
classe de 60 alunos, 40 eram assim.
Folha - E você acha que isso é consequência da baixa
qualidade do ensino básico, que não soube conquistar esses
estudantes?
Vinícius - Não, a culpa mesmo é dos pais, porque não
ensinaram o cara durante o ensino fundamental a prestar atenção.
Aí, chega ao ensino médio e o pai está desesperado, mandando o
filho prestar atenção na aula. Vai adiantar? Ele não sabe como
fazer isso.
Folha - E com você, como foi?
Vinícius - Os meus pais me orientaram bem, eu tomei o hábito e
pronto.
Folha - E namorada?
Vinícius - Não apareceu.
Folha - Você curte música?
Vinícius - Não, não curto música. Eu gosto de silêncio.
Folha - Nem música brasileira?
Vinícius - Menos ainda. Música brasileira sempre foi
nacionalista, contextual. Muita gente acha que eu gosto de música
clássica, mas eu não gosto.
Folha - Você segue alguma religião?
Vinícius - Não.
Folha- Tudo o que não é explicado matematicamente você
não acredita?
Vinícius - Não. Mesmo porque tem um monte de fenômenos
que o povo faz um grande auê em cima. O negócio da morte,
viajar pela morte e tal, é tudo explicável cientificamente. E não que
eu siga a ciência como uma filosofia, uma religião. Eu não acredito
em anjo, em duende, em superstição. Acredito que, às vezes, o
medo comum ou a vontade comum tem influência, mas é
disposição psicológica.
Folha - Já conheceu os veteranos da faculdade?
Vinícius - Conheci. Foi tudo bem. Lá na matemática não tem
piscina, então, não tem massa d'água pra se afogar. Não tem
árvores pra pendurar corda. E também estava cheio de pais por
lá.
(por
Bell Kranz
Editora do Folhateen – Folha de São Paulo de 14/2/2000)