O mundo tem oferecido para
essa seleção duas formas básicas. Uma realizada na entrada dos
cursos superiores e outra feita durante os primeiros anos dos
cursos superiores. É importante notar que o
Brasil destaca-se por ter um dos mais confiáveis sistemas de seleção
entre os adotados no mundo.
SELEÇÃO
DENTRO DA FACULDADE. O
sistema de seleção nos primeiros anos dos cursos superiores é
pouco utilizado (Bélgica, Argentina). Quando não se faz a seleção
na entrada da faculdade, os estudantes interessados são admitidos
diretamente no curso escolhido e, depois dos dois primeiros anos
do seu curso, o excedente (a maioria dos que entraram) é
eliminado com base nas notas da faculdade. Este sistema é pouco
adotado, principalmente porque cria expectativas que não pode
atender, fazendo com que os estudantes sejam dispensados após
gastar muito tempo e esforço, tendo de recomeçar todo o processo
ou mudar para outra área profissional. É comum nesse sistema os
estudantes procurarem cursos de reforço no primeiro ano da
faculdade (externas à mesma), para poderem se destacar e não
serem eliminados na classificação.
SELEÇÃO
NA ENTRADA – VESTIBULAR É
o sistema adotado no Brasil, Estados Unidos, Japão, China, Grécia,
Inglaterra, Canadá, Alemanha etc. É o preferido em termos
mundiais.
A seleção na entrada da
faculdade pode ser feita por um número grande de procedimentos,
muitos dos quais aparecem mesclados. Há provas, entrevistas,
indicações e até sorteio ou fila de espera.
A ) Prova de habilitação
em matérias
Adotado no Brasil, Estados
Unidos, Japão, China, Austrália, Israel, em alguns cursos na
França e na Itália.
Considera-se o uso de
exames de seleção como o sistema de mais alta confiabilidade.
Aplicados de forma criteriosa, permitem avaliação uniforme,
transparente e de melhores resultados, verificáveis na correlação
entre o desempenho dos candidatos nos exames e o desses mesmos
estudantes quando estão na faculdade.
Nas provas de habilitação
há diversos sistemas, alguns que procuram avaliações da formação
escolar geral, outros da formação específica. Também há
provas ligadas à avaliação da capacidade cognitiva; e há
muitos sistemas de provas mistos.
B) Avaliação da
personalidade
Em alguns países são
utilizados sistemas que selecionam conforme a suposta
personalidade do estudante. Para isso são utilizadas cartas de
recomendação, entrevistas, testemunhos e questionários biográficos.
Entrevistas são comumente
praticadas em países de língua inglesa, complementando notas em
provas (Estados Unidos, Inglaterra, Austrália) . Essa forma de
avaliação também é parcialmente encontrada na França (Grandes
Écoles), Alemanha (para Medicina), Espanha e Japão.
C) Critérios por tempo de
espera
Uma outra forma de seleção
– bem polêmica - é colocar o candidato na fila de espera do
curso que deseja fazer. O critério para preenchimento das vagas
é o "tempo de espera". Nos cursos mais concorridos só
funciona porque muitos candidatos desistem da espera, que pode
durar alguns anos. É um dos critérios já utilizados na
Alemanha.
D) O sorteio das vagas
Há alguns anos, um
professor sugeriu a seleção por sorteio para as vagas aqui no
Brasil. Esse critério, entretanto, já tem aplicação na
Holanda, embora não seja um mero sorteio e não valha para todas
as escolas. A Alemanha já utilizou sorteio para Medicina, com
cupons que os candidatos iam acumulando conforme notas no 2º
grau. O sistema é raro por ser muito impopular entre as
faculdades e os candidatos mais preparados.
IMPARCIALIDADE
DO PROCESSOPara
ter boa reputação e ser bem aceito, um sistema de seleção para
vagas no ensino superior precisa de alta imparcialidade. Isto é ,
a seleção de qualidade precisa ter transparência em suas regras
e promover a máxima eqüidade no julgamento.
Os diferentes sistemas de
seleção não apresentam o mesmo grau de imparcialidade. Há vários
fatores interferindo. Vejamos isso mais de perto.
O uso de testes é
considerado bastante imparcial. Boas questões dissertativas também
podem fornecer seleção bastante imparcial (a restrição fica
quanto aos aspectos ideológicos que às vezes interferem na
proposta e na avaliação de alguns exames).
As notas escolares também
são usadas, mas reconhece-se mundialmente que são menos
objetivas e menos imparciais, devido à evidente heterogeneidade
das escolas secundárias e dos processos de avaliação que elas
adotam.
Os instrumentos de avaliação
de interesses, atitudes e valores subjetivos são pouco imparciais
e têm confiabilidade baixa - especialmente em entrevistas e
cartas de recomendação. Há interferência de muitos fatores
fora de qualquer controle (em nosso país há até uma piada para
essa forma de seleção, não adotada nos vestibulares mas comum
em outros processos: é a seleção pelo QI da pessoa - o
"quem indicou")
A utilização do tempo de
espera em fila é certamente muito imparcial (cada um ganha uma
senha e entra em fila). Sabendo o tamanho da fila e o das vagas,
conhece-se o quanto "falta" para chegar a sua vez. Mas
no vestibular a alta imparcialidade não é o único requisito.
Quando se procura estimular o estudo e a qualidade da formação
entre os candidatos, o sistema da fila é altamente negativo. Como
também ocorre com o uso do mero sorteio.
QUALIFICAÇÃO
DOS CANDIDATOSUm
aspecto muito importante para os sistemas de ensino é a
capacidade de realizar uma seleção dos candidatos com as
qualificações desejadas. Quando os candidatos selecionados
realmente apresentam essas qualificações, pode-se verificar que
conseguem melhor desempenho na universidade. Esse fator costuma
ser chamado de "validade preditiva" do sistema de seleção
e em muitos países tem sido objeto de avaliação (comparando-se
a classificação de quem entrou com o desempenho escolar dos
estudantes na faculdade).
As seleções que têm
mostrado melhor validade preditiva são as realizadas por notas
dos candidatos em exames.
A seleção por entrevistas
e por cartas de recomendação ou testemunhos tem mostrado baixos
coeficientes de validade preditiva.
As seleções por sorteio e
tempo de espera em fila, obviamente, não têm qualquer validade
preditiva.
ACEITAÇÃO
DOS SISTEMASMuitos
países ainda adotam a entrevista, curiosamente um dos sistema de
seleção mais caros, menos confiáveis e de menor valor
preditivo. Ele é sustentado pelo mito de que avalia a
"pessoa por inteiro", mas muitas vezes apenas são
escolhidos os que sabem o "caminho" da indicação. É
procedimento particulamente popular em países de longa tradição
aristocrática, nos quais os privilégios sempre tiveram amplo
espaço.
Para sua consolidação ao
longo do tempo, o sistema de seleção adotado precisa contar com
o apoio e o respeito dos candidatos, dos professores, da
administração das faculdades e do público em geral. Por isso,
é fundamental a sua imparcialidade (critérios claros,
transparentes) e sua validade preditiva (selecionando os que
realmente estão com melhor qualificação).
A combinação adequada
desses dois fatores resulta em estabilidade e respeito pelo
sistema, mesmo quando a concorrência pelas vagas atinge índices
muito altos e apresenta grande número de "não-selecionados".
Alguns países com sistema educacional forte e muito dinamismo
conseguiram essa combinação equilibrada (China, Japão, Coréia,
Tailândia).
E merece aqui destaque o
caso de nosso país. O Brasil, apesar de tantos desencontros e
desequilíbrios em seu sistema educacional, tem conseguido manter
ao longo do tempo um invejável sistema de seleção para os
cursos superiores. É um sistema muito transparente e bastante
confiável. Somente isso explica a aceitação e o respeito que os
grandes vestibulares têm em nosso país, conseguindo aceitação
mesmo tendo de enfrentar a difícil tarefa de determinar entre
120000 estudantes quais irão ocupar as 7000 vagas dos cursos das
universidades públicas (caso da USP, no exemplo). Veja-se que
esse respeito existe não porque o sistema brasileiro é imune a
falhas, mas sim porque tem poucas falhas e porque tem sempre
mostrado dispositivos de correção dessas falhas. O vestibular
brasileiro, por sua qualidade e pelo respeito que impõe, sem dúvida
é uma honrosa exceção nacional.
Deve-se refletir sobre isso
neste momento em que se fala em "abrir" o sistema de
seleção brasileiro a novas experiências. O vestibular no Brasil
tem mostrado grande capacidade logística, atendendo centenas de
milhares de candidatos no intervalo de alguns dias. Faz isso com
seriedade, competência e - antes de tudo - com o apoio dos
estudantes e professores. Mudanças com uma certa improvisação
(como é o caso da proposta) podem criar novas dificuldades, sem
os correspondentes mecanismos de controle e solução, que foram
aperfeiçoados no vestibular tradicional ao longo de muitos anos
de avaliação e de críticas (o vestibular tem mais de 70 anos de
vida "oficial" no país). O custo é muito alto, se
considerados os riscos que traz para a confiabilidade do processo.
Antes de sairmos aplaudindo mudanças, precisamos responder
claramente se tais riscos têm algum benefício adicional que os
justifiquem.
De modo geral, as grandes
universidades, especialmente no estado São Paulo, pretendem
continuar com sua seleção dentro do critério de autonomia que
possuem. E são elas que irão garantir a continuidade do respeito
e da qualidade que os vestibulares conquistaram em nosso país (matéria do Tendências do
Vestibular/Etapa).