Para começar a entender o vestibular, precisamos liquidar o mito de que é possível
acabar com ele. E, também, entender que, quanto mais avançado o país, mais
furiosamente competitivo é o acesso às boas escolas, pois passam a ser mais
decisivas no futuro do candidato. Na passagem do 2º para o 3º grau há um
estreitamento (mesmo nos países mais ricos). Ora, se há mais candidatos do que
vagas, como decidir? Duelos ou sorteios? Melhor escolher os alunos mais bem
preparados. Portanto, não há como evitar algum critério meritocrático.
No Japão e na
Coréia há uma horrenda concorrência para entrar nas melhores escolas. Todos
fazem cursinhos, desde o jardim-de-infância. Na Coréia, os pais gastam tanto
nos cursinhos quanto o Estado em educação pública. E estudantes se suicidam
quando os resultados desapontam. Nos Estados Unidos, em cada Estado há instituições
públicas obrigadas a aceitar qualquer aluno. Todavia, no topo da pirâmide, nas
supostamente melhores, a competição é feroz e, de longe, mais árdua que no
Brasil. Portanto, mais vagas não resultam na eliminação da concorrência.
Mesmo no Brasil, existem muitos cursos com mais vagas que candidatos.
Qual o critério
mais justo e menos traumático? O Brasil está à frente da maioria das nações,
pois, em um país de cartórios e afilhados, no ensino superior não se entra
por jeitinho, amizades ou suborno. Na França e na Argentina há outro sistema:
entram todos os que têm diploma de 2º grau. Mas no primeiro ano a metade é
podada. Não é um método melhor.
O vestibular é
acusado de ser um momento único, um tudo ou nada. Uma dor de barriga ou de
cotovelo poria a perder um ano de esforço. Exames "a prestações"
estão sendo tentados, com aparente sucesso. Mas é preciso estar em uma escola
participante para ir fazendo as provas. Como solução única, peca pela falta
de eqüidade, pois prejudica os alunos de outros estabelecimentos. Usar as notas
do 2º grau não funciona, pois as escolas menos exigentes são as que dão
melhores notas.
Diferentemente do
que se pensa, há ampla evidência científica de que a sorte joga um papel
modesto, mesmo em uma prova única como o vestibular. O bem aprendido nos muitos
anos anteriores é o que determina as chances de êxito. O defeito da prova única
é menos introduzir a sorte do que iludir os que julgam ser possível estudar na
última hora.
O vestibular
convencional exerce duas funções: descobre quem sabe mais e distribui os
alunos pelas instituições e carreiras, de acordo com as notas. A primeira função
é boa e indispensável. A segunda, mandona e dispensável. Com o Exame Nacional
do Ensino Médio (Enem), recém-criado pelo MEC, mede-se o que sabe o aluno e
cada instituição usa esse resultado como quer, combinando-o com que outras
provas desejar. Fica-se com os benefícios de uma prova bem-feita e eliminam-se
os mecanismos centralizados de determinar quem vai para onde.
O custo do Enem
é compartilhado por muitos milhares de candidatos. Isso permite fazer uma prova
cara e cujo desenho busca captar conhecimentos de ordem superior. Mudam-se as
regras do jogo. Já não é mais a decoreba, em que se premia a memorização de
fatos mais do que o aprender a pensar – como tendem a ser os vestibulares das
nossas melhores universidades. Nesse sentido, dá claras vantagens aos alunos
das escolas que ensinam melhor. Mas há um dilema aqui. Ao medir os domínios
mais nobres do conhecimento, pelo menos inicialmente, pode dar ainda mais
vantagens aos alunos das escolas elitizadas. Contudo, a alternativa de manter
uma prova burra não parece convincente.
No fundo, o
grande tema é um só: as sociedades modernas premiam cada vez mais a qualidade
da educação recebida, tornando mais competitiva a entrada no curso superior e
requerendo mais esforço dos alunos que disputam vagas nas melhores escolas. O
resto é mecânica e detalhe, nada irrelevantes, mas que apenas dão as regras
de trânsito no momento em que há mais candidatos que vagas.
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