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 Artigo para o Dia do Psicólogo


   Por Tales Vilela Santeiro
Diretor da Faculdade de Psicologia da Universidade de Franca - UNIFRAN

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A MATÉRIA-PRIMA DA PSICOLOGIA

Sinto-me confuso. Sinto-me infeliz. Sinto-me eufórico. Sinto-me triste. Sinto-me nervoso. Sinto-me frustrado. Sinto-me incapaz. Sinto-me à flor-da-pele. Pareço não caber em mim mesmo.

Tenho problemas comigo mesmo. Tenho problemas com meus amigos. Tenho problemas com meu cônjuge. Tenho problemas com meus filhos. Tenho problemas no meu emprego. Tenho problemas na minha escola. Tenho problemas com minha saúde. Tenho dificuldades por onde passo e vivo.

Todas essas combinações listadas nos parágrafos anteriores e apresentadas em separado, numa primeira leitura podem parecer desconexas, mas costumam residir, em maior ou menor grau, dentro de cada um de nós. Um ou outro destes itens aparece na vida, seja que por instantes. Em outros momentos, muito mais combinações do que "gostaria de perceber" em mim mesmo. Às vezes, muito mais do que "gostaria de perceber" nos outros.

Com freqüência experimento vários desses estados emocionais, ou diversos dos problemas enumerados num único dia. Outras vezes consigo uma trégua diante de mim mesmo, ou diante do outro com o qual convivo. Em outros momentos não consigo lidar com esses aspectos sozinho: os recursos que apresentava até então e que conferiam “segurança” para a luta cotidiana da vida são insuficientes. Sinto-me traído por mim mesmo, ou pelo mundo que me cerca.

Não raro, entender meu próprio mundo interno é inconciliável diante das atividades do dia comum. Entender o mundo ao meu redor também requer esforço considerável. Isso me muda, deixando-me mudo. Provoca gritos, girando-me em meu próprio eixo.

Essa dinâmica existente entre capacidade e incapacidade me faz morrer, quando perco forças e não luto. Ela me desafia, quando tenho forças, e luto, ainda que ofegante. Esse conflito infindável me caracteriza como ser humano, mesmo que em muitos momentos "não queira". Sou responsável por mim mesmo e pelo que vivo, mesmo que isso doa. Isso provoca dilacerações na minha alma, quando não entendo. Provoca crescimento, quando, mesmo sem um entendimento desejado, desejo.

A Psicologia elege esse mundo descrito como matéria-prima. É com essa diversidade de mundos, internos e externos, individuais e sociais, que o psicólogo trabalha. Sobre essa diversidade o psicólogo faz a escolha de estudar e dedicar-se, com a sede de quem precisa nascer para as novas vidas que os outros apresentam, dia-a-dia. Com a sede e o cuidado necessário de saber-se gente, tanto quanto o outro que se apresenta como seu cliente.

A profissão do psicólogo faz a junção entre cuidador e cuidado numa mesma pessoa. A mesma matéria-prima, em momentos de vida diferentes, se encontra para gestar novas vidas: psicólogo cuida de gente e gente promove psicólogos. Essa a matéria-prima, o sumo da Psicologia: a vida em construção, que se recoloca diante de mim mesmo e diante do mundo no qual vivo, paulatina e inexoravelmente a cada novo dia.

Tales Vilela Santeiro
Diretor da Faculdade de Psicologia da Universidade de Franca - UNIFRAN


 

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