
A MATÉRIA-PRIMA DA
PSICOLOGIA
Sinto-me confuso. Sinto-me
infeliz. Sinto-me eufórico. Sinto-me triste. Sinto-me nervoso. Sinto-me
frustrado. Sinto-me incapaz. Sinto-me à flor-da-pele. Pareço não caber em mim
mesmo.
Tenho problemas comigo mesmo.
Tenho problemas com meus amigos. Tenho problemas com meu cônjuge. Tenho
problemas com meus filhos. Tenho problemas no meu emprego. Tenho problemas na
minha escola. Tenho problemas com minha saúde. Tenho dificuldades por onde
passo e vivo.
Todas essas combinações
listadas nos parágrafos anteriores e apresentadas em separado, numa primeira
leitura podem parecer desconexas, mas costumam residir, em maior ou menor
grau, dentro de cada um de nós. Um ou outro destes itens aparece na vida, seja
que por instantes. Em outros momentos, muito mais combinações do que "gostaria
de perceber" em mim mesmo. Às vezes, muito mais do que "gostaria de perceber"
nos outros.
Com freqüência experimento
vários desses estados emocionais, ou diversos dos problemas enumerados num
único dia. Outras vezes consigo uma trégua diante de mim mesmo, ou diante do
outro com o qual convivo. Em outros momentos não consigo lidar com esses
aspectos sozinho: os recursos que apresentava até então e que conferiam
“segurança” para a luta cotidiana da vida são insuficientes. Sinto-me traído
por mim mesmo, ou pelo mundo que me cerca.
Não raro, entender meu
próprio mundo interno é inconciliável diante das atividades do dia comum.
Entender o mundo ao meu redor também requer esforço considerável. Isso me
muda, deixando-me mudo. Provoca gritos, girando-me em meu próprio eixo.
Essa dinâmica existente entre
capacidade e incapacidade me faz morrer, quando perco forças e não luto. Ela
me desafia, quando tenho forças, e luto, ainda que ofegante. Esse conflito
infindável me caracteriza como ser humano, mesmo que em muitos momentos "não
queira". Sou responsável por mim mesmo e pelo que vivo, mesmo que isso doa.
Isso provoca dilacerações na minha alma, quando não entendo. Provoca
crescimento, quando, mesmo sem um entendimento desejado, desejo.
A Psicologia elege esse mundo
descrito como matéria-prima. É com essa diversidade de mundos, internos e
externos, individuais e sociais, que o psicólogo trabalha. Sobre essa
diversidade o psicólogo faz a escolha de estudar e dedicar-se, com a sede de
quem precisa nascer para as novas vidas que os outros apresentam, dia-a-dia.
Com a sede e o cuidado necessário de saber-se gente, tanto quanto o outro que
se apresenta como seu cliente.
A profissão do psicólogo faz
a junção entre cuidador e cuidado numa mesma pessoa. A mesma matéria-prima, em
momentos de vida diferentes, se encontra para gestar novas vidas: psicólogo
cuida de gente e gente promove psicólogos. Essa a matéria-prima, o sumo da
Psicologia: a vida em construção, que se recoloca diante de mim mesmo e diante
do mundo no qual vivo, paulatina e inexoravelmente a cada novo dia.
Tales Vilela Santeiro
Diretor da Faculdade de Psicologia da Universidade de Franca - UNIFRAN