»
A morte e a morte de Quincas Berro D'Água
(Jorge Amado ( 1959/Modernismo)
Jorge Amado é um dos escritores brasileiros mais conhecido no exterior, senão o mais conhecido. Autor de romances ditos
"regionalistas", definiu-se certa vez como "apenas um baiano
romântico e sensual". É bem mais que isso, nós sabemos:
através de suas mãos, nasceram personagens inesquecíveis:
Gabriela, Tieta e... Quincas Berro D'água.
Quando a novela saiu, em 1959, Vinícius de Moraes
considerou-a "a melhor novela da literatura brasileira". Não
exageremos, Vinícius! Mas que é uma beleza de novela, isso lá
é.
A morte e a morte de Quincas Berro D'água é, antes de tudo,
uma crítica azeda aos comportamentos burgueses. A par
disso, Jorge Amado soube colocar sua imaginação a serviço do
humor e da ironia: criou, nas 12 partes da novela, um homem,
Quincas, que, mesmo morto, vai ter sua noite de almirante.
E já começa anunciando o enigma:
"Até hoje permanece certa confusão em torno da morte de
Quincas Berro D'água. Dúvidas por explicar, detalhes absurdos,
contradições no depoimento das testemunhas, lacunas
diversas. Não há clareza sobre hora, local e frase derradeira. A
família, apoiada por vizinhos e conhecidos, mantém-se
intransigente na versão da tranqüila morte matinal, sem
testemunhas, sem aparato, sem frase."
A família de um lado, os amigos do outro... Segundo a versão
de Mestre Manuel e Quitéria do Olho Arregalado, não foi nada
disso. Mas que diabo de história é essa? A história de um
homem que, nos últimos anos de sua existência tornara-se
desgosto da família, que abandonara a partir da
aposentadoria.
Uma mulher chata e faladeira, uma filha que lhe seguira os
passos, e o nosso Quincas debandou: de homem íntegro e
cumpridor, caiu na vida e se transformou no bêbado mais
famoso da Bahia, no freqüentador da zona do cais do porto O
narrador, em terceira pessoa, nos avisa que um homem pode
ter muitas mortes. Inclusive aquela, a de que seu nome fosse
pronunciado na frente dos netos, observando-se que o cabo
Joaquim, homem bom e trabalhador, morrera cercado da
estima e do respeito de todos.
Os colegas de repartição de Leonardo Barreto, o genro de
Quincas, e as amigas de Vanda, a filha envergonhada, todos
achavam que Quincas era homem justo e bom. Mas
descobriram , por fim, de quem se tratava. Então, quando um
santeiro veio avisar que Quincas morrera de verdade, a filha e
o genro acharam bom o fato: estavam finalmente livre das
vergonhas públicas praticadas por ele. Mas precisavam
enterra-lo. Foram encontra-lo naquele catre sujo, estendido,
com o dedão do pé a sair da meia furada e um sorriso de
escárnio a bailar no rosto.
"Era o cadáver de Quincas Berro D'água, cachaceiro,
debochado e jogador, sem família, sem lar, sem flores e sem
rezas."
A mulher Otacília certamente morrera de desgosto quando o
marido, aos 50 anos, abandonara a família, a casa e os hábitos
distintos , os conhecidos e amigos e fora vagabundear pelas
ruas, beber em botequins baratos, freqüentar a zona do
meretrício, viver sujo e barbado, morar em infame pocilga e
dormir em catre miserável.
Enquanto esperavam o atestado de óbito, Vanda imagina que
poderá pedir a aposentadoria do pai para si. E era preciso
enterra-lo. Na pocilga em que o pai morava, não havia nada
para sentar, a não ser um caixão de querosene vazio. Expulsou
os curiosos e esperou.
Comprado o caixão, imaginou levar o pai para casa e velá-lo
como se fosse cristão, tia Marocas, gorda de dar medo,
achava melhor espalhar que ele morrera no interior e que só
fariam o convite para a missa de sétimo dia.
E assim foi feito o velório, com os parentes se revezando. À
tarde, Vanda ficou a sós com o pai; a humilhação de anos e
anos, a morte da mãe e os nomes que davam ao pai: rei dos
vagabundos da Bahia, cachaceiro-mor de Salvador, senador
das gafieiras... olhando o pai morto, sentiu , finalmente, que
domara Quincas. Mas, em meio a devaneios sobre a infância,
lembrando-se depois de quando iria se casar e que o pai as
abandonara, ouviu o desaforo sibilante de Quincas:
- Jararaca!
Pensou estar sonhando. Mas quando tia Marocas entrou,
Quincas vingou-se:
- Saco de peidos!
E ajeitou-se no caixão...
A notícia da morte de Quincas espalhara-se pelas ruas de
Salvador e se lembravam os amigos de que ele jamais admitia
morrer numa cama e porque se desequilibrasse sempre, depois
de beber, dizia que era porque era um velho marinheiro, um
homem do mar. Homem como poucos, diziam, que passara
anos sem beber água e reconhecia uma pinga pelo cheiro ou
cor. Mas que um dia berrava assustadoramente porque bebera
água em lugar de pinga, num balcão imundo perto do Elevador
Lacerda...
No começo da noite, foram os amigos mais íntimos velar
Quincas: Curió, Negro Pastinha , cabo Martim e Pé-de-Vento.
Tinham chorado muito e estavam ainda sóbrios, ofereceram-se
para tomar conta do morto.
A família aceitou, as mulheres se foram e os homens, um a um
, também. Eduardo que deu aos amigos dinheiro para eu
comprassem sanduíches, prometendo voltar pela manhã, para
o enterro.
Os amigos puseram um sapo entre as mãos do defunto que se
iluminou; deram-lhe depois a bebida, sentaram-no no caixão,
vestiram-no com as roupas velhas e o descalçaram. Quincas
começou a falar , os amigos o puseram de pé e saíram com ele
para a noite.
Quincas divertiu-se por toda a noite, entre prostitutas e
bêbados, e terminou a noite entre as pernas de Quitéria,
sentado na praia. Depois, no saveiro de Mestre Manuel, foi
colhido por uma onda e desapareceu no mar, o velho
marinheiro.
Mas dizem que antes de desaparecer, ainda gritou, bem alto:
"Me enterro como entender
Na hora que resolver.
Podem guardar seu caixão
Pra melhor ocasião.
Não vou deixar me prender
Em cova rasa do chão."
Estudo da Profª Esther PS Rosado http://www.navedapalavra.com.br