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Marília de Dirceu (Tomás Antônio Gonzaga)

                               

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Marília de Dirceu (Tomás Antônio Gonzaga)


INTRODUÇÃO

Numa breve introdução ao Neoclassicismo como estilo da época, podemos afirmar que este estilo representa o momento de coesão e revelância da doutrina clássica originada na Renascença e que alcança a sua estruturação perfeita na literatura francesa do século XVII. Do ponto de vista histórico, o século XVIII é o século das luzes, momento em que se desenvolve uma visão científica do mundo. A ciência e o racionalismo constituem as luzes com que se costuma caracterizar o século. A razão ilumina, ilustra; daí as palavras iluminação e ilustração que caracterizam as manifestações culturais do momento, o conjunto das tendências características. No campo da literatura, o Neoclassicismo representa, nas diversas literaturas européias, uma generalizada reação contra o Barroco, sob o irresistível impulso do pensamento racionalista dominante em toda a Europa a partir do século XVIII.

Como fruto desse iluminismo, um bom exemplo na literatura é a poesia satírica, largamente difundida na época, e de que As Cartas Chilenas podem funcionar como um bom exemplo, na nossa literatura.

Sem nos prendermos à “tirania cronológica” podemos dizer que o Neoclassicismo como estilo de época foi inaugurado, oficialmente, em Portugal, com a criação da Arcádia Lusitana, em 1756, e vai-se prolongar até 1825, quando Garrett publica o poema narrativo de feição romântica, Camões. No caso do Brasil, há um pequeno atraso com relação às delimitações “oficiais”, sem nenhum critério estritamente literário: o início é marcado pela data de 1768, com a publicação das Obras Poéticas, de Cláudio Manuel da Costa, estendendo-se até 1836, quando se dá a implantação oficial do Romantismo, com os Suspiros Poéticos e Saudades,

Marília de Dirceu, a obra de Tomás Antônio de Gonzaga, se enquadra exatamente nesse estilo de época: o Neoclassicismo ou por outros chamado de Arcadismo. Sua primeira edição, constando apenas da Parte I (23 liras), foi editada em Lisboa, em 1792, saindo a Parte II, também em Lisboa, em 1799. Com relação à Parte III, que muitos julgam apócrifa, Rodrigues Lapa considera autêntica a edição de 1812, da Impressão Régia.





CARACTERÍSTICAS MARCANTES DA OBRA


1) Uma das mais exploradas características barrocas foi, sem dúvida, a suntuosidade e, de certo modo, a complicação, principalmente da forma exterior (cf. cultismo), além de empanar e perturbar a limpidez e lógica do ideário clássico. Daí o sentido pejorativo que teve o Barroco naquela época.

Um dos postulados básicos de Neoclassicismo é exatamente a reação ao preciosismo e confusão do estilo barroco, ou seja, o Neoclassicismo significou antes de tudo, como a própria palavra explicita, um retorno ao equilíbrio, à simplicidade da linguagem e de idéias da literatura clássica quinhentista e greco-latina.

A imitação dos modelos clássicos volta à tona, e a razão, mais uma vez, tem dias de glória. Esse racionalismo, essa fundamentação racionalista, na literatura configurada na aceitação e volta ao pensamento e cultura clássica, têm confirmação de autores da época, como Filinto Elísio, que aconselhava:



“ Lede, que é tempo, os clássicos honrados;

Herdai seus bens, herdai essas conquistas,

Que em reinos dos romanos e dos gregos

Com indefeso estudo conseguiram.



Vereis então que garbo, que facúndia

Orna o verso gentil quanto sem eles

É delambido e peco o pobre verso.

Lede, que é grande cegueira esse descuido.”





Tomás Antônio Gonzaga, como “o mais árcade de nossos árcades” leu “esses clássicos honrados” e se mostra impregnado deles em muitas liras de sua Marília de Dirceu. Aí está a linguagem estereotipada da mitologia, do retrato da mulher ideal que, no fundo, são decorrências do imperativo da razão e da lógica: se um princípio qualquer era válido para os antigos (porventura autoridades do assunto), tinha que sê-lo também para os novos. Se os antigos usaram uma determinada forma poética e a cultivaram, o mesmo deveriam fazer os novos. Daí a estereotipia de linguagem e também de assunto.



Assim, é como poeta integrado no espírito neoclássico e arcádico que Gonzaga, uma das maiores expressões literárias da época, descreve Marília: mulher nívea, de cabelos longos e louros. É assim que Gonzaga descreve Marília na primeira lira da Parte I. Não importava que Marília fosse brasileira e morena, como o poeta a descreverá na lira seguinte (I, 2). Era, talvez, mais importante estar integrado no espírito e convenções do Arcadismo.





"Os teus olhos espalham luz divina,

A quem a luz do Sol em vão se atreve;

Papoula, ou rosa delicada, e fina, 

Te cobre as faces, que são cor de neve.

Os teus cabelos são uns fios d'ouro;

Teu lindo corpo bálsamos vapora.

Ah! não, não fez o Céu, gentil Pastora,

Para glória de Amor igual tesouro.

Graças, Marília bela,

Graças à minha Estrela!"



Sem dúvidas, outras descrições idealizadas como esta podem ser notadas no livro. É só ler com atenção e espírito crítico.



Mas, como falamos, outro postulado estético, racionalmente aceito na época, era a mitologia. Seria ocioso mostrar os valores e referências mitológicas no livro, dada a presença avassaladora dos deuses do Olimpo, principalmente Cupido com suas setas mortais e Vênus que está sempre cotejada com Marília, a quem esta sempre vence pela beleza divinal:



"O destro Cupido um dia Por fazer pensar a todos

Extraiu mimosas cores No seu liso centro escreve

De frescos lírios,e rosas, Um letreiro, que pergunta:

De jasmins, e de outras flores. 'Este espaço a quem se deve?'



Com as mais delgadas penas Vênus, que viu a pintura,

Usa de uma, e de outra tinta, E leu a letra engenhosa,

E nos ângulos do cobre Pôs por baixo: 'Eu dele cedo;

A quatro belezas pinta. Dê-se a Marília formosa'"



Outro excelente exemplo, em que o poeta perpassa a sua visão do mundo filtrada pela ótica mitológica, é a lira 25 (Parte I).



2) O Racionalismo é outro elemento decorrente da volta ao passado clássico. Destacamo-lo aqui, dada a sua importância como principal esteio da ideologia neoclássica. Já falamos atrás, da complicação do pensamento, da linguagem, das idéias do estilo barroco. A esta complicação se opôs a lógica - clara, límpida, cristalina do Neoclassicismo, que se revela pela simplicidade de raciocínio, que é claro e lógico, como se pode entrever na argumentação da Lira VIII (Parte I):



"Já viste, minha Marília, As grandes Deusas do Céu

Avezinhas, que não façam Sentem a seta tirana

Os seus ninhos no verão? Da amorosa inclinação.

Aquelas, com quem se enlaçam, Diana, com ser Diana,

Não vão cantar-lhes defronte Não se abrasa, não suspira

De mole pouso, em que estão? Pelo amor de Endimião?

Todos amam: só Marília Todos amam: só Marília

Desta Lei da Natureza Desta Lei da Natureza

Queria ter isenção? Queria ter isenção?



Se os peixes, Marília, geram Desiste, Marília bela,

Nos bravos mares, e rios, De uma queixa sustentada

Tudo efeitos de Amor são. Só na altiva opinião.

Amam os brutos ímpios, Esta chama é inspirada

A serpente venenosa, Pelo Céu; pois nela assenta

A onça, o tigre, o leão. A nossa conservação.

Todos amam: só Marília Todos amam: só Marília

Desta Lei da Natureza Desta Lei da Natureza

Queria ter isenção? Não deve ter isenção."



3) O Bucolismo na poesia arcádica é também uma decorrência da volta ao passado clássico quinhentista e greco-latino. Fundamentado nos autores bucólicos, o Neoclassicismo fez dessa matéria uma de suas principais temáticas poéticas. A poesia pastoril ou bucólica, sem dúvida, não é apenas um postulado estético a que devia seguir o poeta. Chegou mesmo a representar uma idealização da vida, inclusive, numa tentativa de identificação com os modelos gregos, os poetas arcádicos chegaram a usar nomes de pastores: Gonzaga (Dirceu), Cláudio (Glauceste/Alceste), Basílio da Gama (Termindo Sipílio).



A própria criação de arcádias (daí o nome Arcadismo para este estilo'de época) mostra muito bem essa idealização da vida campesina.



Mostrar o bucolismo de Marília de Dirceu é demonstrar o óbvio, dado o predomínio quase que total da atmosfera pastoril nas liras, sobretudo na Parte I:



"Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,

Que viva de guardar alheio gado;

De tosco trato, d'expressões grosseiro,

Dos frios gelos, e dos sóis queimado,

Tenho próprio casal, e nele assisto;

Dá-me vinho, legume, fruta, azeite;

Das brancas ovelhinhas tiro o leite,

E mais as finas lãs, de que me visto.

Graças, Marília bela,

Graças à minha Estrela!



Eu vi meu semblante numa fonte,

Dos anos inda não está cortado:

Os Pastores, que habitam este monte,

Respeitam o poder do meu cajado:

Com tal destreza toco a sanfoninha,

Que inveja até me tem o próprio Alceste:

Ao som dela conserto a voz celeste;

Nem canto letra, que não seja minha.

Graças, Marília bela,

Graças à minha Estrela!



Irás divertir-te na floresta,

Sustentada, Marília, no meu braço;

Ali descansarei a quente sesta,

Dormindo um leve sono em teu regaço.

Enquanto a luta jogam os Pastores,

E emparelhados correm nas campinas,

Toucarei teus cabelos de boninas,

Nos troncos gravarei os teus louvores.

Graças, Marília bela,

Graças à minha Estrela!" (Lira 1)



4) Convívio com a Natureza. Aceitando o conceito de arte como imitação da natureza, os autores neoclássicos procuram valorizá-la, recriando-a através de escrições em que era embelezada em seus aspectos considerados apoéticos. A natureza dos árcades era, pois, a verossímil e não a real, de natureza universal e aceita como a ideal. Sem dúvida, o convívio com a natureza se fundamenta numa postura de bastante voga na época: o "fugere urbem" (=fugir da cidade), que é exatamente a busca da simplicidade manifestada através do bucolismo.



Muitas vezes, a natureza chega a exercer o papel de confidente, como nos sonetos de Cláudio Manoel da Costa, onde a natureza participa da desventura amorosa do poeta, escutando as suas lágrimas e recolhendo os seus soluços:



"Grutas, troncos, penhascos da espessura,

Se o meu bem, se a minha alma em vós se esconde,

Mostrai, mostrai-me a sua formosura."



Em Gonzaga, se a natureza não exerce o papel de confidente como em Cláudio, está presente de modo avassalador, como cenário dos seus idílios e devaneios amorosos, a ponto de transformar a íngreme e montanhosa Vila Rica em doces e amenos campos de pastagens ("locus amoenus"), onde vivem os pastores e seus rebanhos. A presença da natureza nas liras é uma constante: a natureza verossímil, idealizada - não a verdadeira, como se pode notar na lira 5 (I):



"Aqui um regato Mas como discorro?

Corria sereno Acaso podia

Por margens cobertas Já tudo mudar-se

De flores, e feno: No espaço de um dia?

A esquerda se erguia Existem as fontes,

Um bosque fechado, E os feixos copados;

E o tempo apressado, Dão flores os prados,

Que nada respeita, E corre a cascata,

Já tudo mudou. Que nunca secou.

São estes os sítios? São estes os sítios?

São estes; mas eu São estes; mas eu

O mesmo não sou. O mesmo não sou.

Marília, tu chamas? Marília, tu chamas?

Espera, que eu vou Espera, que eu vou."



5) Manifestações Pré-Românticas. É fato incontestável o caráter transitório do Arcadismo ou Neoclassicismo, principalmente com poetas da categoria de um Bocage ou de um Gonzaga. Assim, "ao mesmo tempo que se busca o primado absoluto da razão, cultiva-se o sentimento, a sensibilidade, o irracionalismo" (Afrânio Coutinho) - características tipicamente românticas. Vimos atrás o retrato estereotipado de Marília. Vejamos agora como o poeta se desprende dos clichês e convenções arcádicas, numa visível atitude romântica (I, 2):



"Pintam, Marília, os Poetas Porém eu, Marília, nego,

A um menino vendado, Que assim seja Amor; pois ele

Com uma aljava de setas Nem é moço, nem é cego,

Arco empunhado na mão; Nem setas, nem asas tem.

Ligeiras asas nos ombros, Ora, pois, eu vou formar-lhe

O tenro corpo despido, Um retrato mais perfeito

E de Amor, ou de Cupido Que ele já feriu meu peito;

São os nomes, que lhe dão. Por isso o conheço bem."



E o que dizer do tom confessional e plangente, da sensibilidade e emoção, da cor local existente em muitas liras do livro? - Sem dúvida, são características decisivamente românticas. É o Romantismo que está chegando. Não se pode, absolutamente, dizer que o poeta está preso às limitações neoclássicas. As asas da imaginação e da liberdade criadora estavam nascendo! Com mais um pouco, o poeta estaria navegando por esferas nunca dantes navegadas: a esfera do sonho e da imaginação; da emoção e do subjetivismo, que se revelam sobretudo na Parte II, onde Gonzaga vai se libertando de Dirceu e chega mesmo a predominar sobre Marília.



Assim, concluindo, podemos dizer que a poesia neoclássica em Gonzaga "apresenta duas faces contrastantes e complementares: quando imita os moldes clássicos e quinhentistas, é arcádica propriamente dita, ou neoclássica; quando reflete as novas inquietações que preparavam a eclosão do Romantismo, é pré-romântica " (Massaud Moisés).



O ESTILO DE GONZAGA NAS LIRAS



No prefácio à Marília de Dirceu (Lisboa, 1957), Rodrigues Lapa, comentando o estilo de Gonzaga, afirma que "não é a persistência dos elementos tradicionais da poesia, mais ou menos pessoalmente elaborados, que nos dão definitivamente o seu estilo. Este consiste sobretudo nas novidades sentimentais e concepcionais que trouxe para uma literatura, derrancada no esforço de remoer sem cessar a antiguidade. Um amor sincero, na idade em que o homem sente fugir-lhe o ardor da mocidade, e uma prisão injusta e brutal - foram estas duas experiências que fizeram desferir à lira de Dirceu acentos novos. Estamos ainda convencidos de que o clima americano, mais arejado e mais forte, contribuiu poderosamente para a revelação desse estilo, em que se sentem já nitidamente os primeiros rebates do romantismo e a impressão iniludível das idéias do tempo."



Partindo daqui, podemos apontar três fatores básicos que contribuíram para a individualidade poética de Gonzaga: o romance com a menina Maria Dorotéia; a prisão injusta e brutal, como inconfidente; e a magia da natureza e do clima tropical.



Aqui vale ressaltar também a influência de Cláudio Manoel da Costa (Glauceste ou Alceste, nas liras) a quem o poeta devotava grande amizade e admiração, e que Antônio Cândido defende como elemento fundamental na criação das liras gonzagueanas: "sem Dorotéia e sem Cláudio não teríamos a sua obra" - a primeira como fonte de inspiração: "o amor"; o segundo como elemento policiador de seus versos: "a técnica".



A presença de Maria Dorotéia Joaquina de Seixas - sob o nome pastoril de Marília - é fato insofismável; o lirismo amoroso e idílico tecido à volta de uma experiência concreta - a paixão, o noivado, a separação - é igualmente fato inegável e insofismável: o tema do livro é, pois, Marília, sinônimo de Amor - fonte inspiradora do poeta, quer como mulher física e concretamente sentida, quer como uma vaga pastorinha - objeto ideal de poesia que vai e vem como peteca: por isso mesmo, ora é loura, ora morena, como já vimos.



Ademais, sob essa mesma Marília, sentida de carne e osso (cf. I, 14 outras) ou idealizada como esposa dedicada e firme (cf. II, 4), podem esconder pedaços de Lauras, Nises ou Elviras, como revela a Lira 5 da Parte III (confronte-se com I, 1).



Assim, negar a presença física e concreta de Maria Dorotéia nas liras é incorrer em tão grasso engano quanto negar a presença da pastora Marília: ambas têm um lugar ao sol nas liras, assim como têm presença garantida no livro o poeta ouvidor Tomás Antônio Gonzaga e o pastor Dirceu.



A influência de Cláudio Manuel da Costa nas liras é fato que Antônio Cândido defende com fortes argumentos. Com efeito, há diversas referências nas liras e Cláudio (Glauceste ou Alceste) como:



a) elogiando-o pela sua posição que considerava superior (I, 31):

"Porém que importa

não valhas nada

seres cantada

do teu Dirceu?

Tu tens, Marília,

cantor celeste;

o meu Glauceste

a voz ergueu:

irá teu nome

aos fins da terra

e ao mesmo Céu."



b) na lira 1 (I), onde traça o próprio perfil, manifesta o orgulho de ser admirado pelo "poeta das lágrimas tristes":



"Com tal destreza toco a sanfoninha

que inveja até me tem o próprio Alceste."



c) comovente a bela é também a amizade que unia os dois poetas, como se pode ver na lira 12 (II):



"Quando passar pela rua

o meu companheiro honrado,

sem que me vejas com ele

caminhar emparelhado,

tu dirás: Não foi tirana

somente comigo a sorte;

também cortou desumana

a mais fiel união."



O mais curioso dessa amizade, como observa Rodrigues Lapa, "é que Cláudio Manuel da Costa, ao tempo que Gonzaga escrevia estes versos (na prisão), estava denunciando o amigo como comprometido na conjura!"



Segundo ainda Antônio Cândido esta amizade contribuiu grandemente para a individualidade e naturalidade do estilo de Gonzaga: "Mais notável se torna o calor dessa fraternidade sem ciúmes, se repararmos que Gonzaga vinha de certo modo superar a obra de Cláudio, trazendo à literatura luso-brasileira um tom moderno dentro do Arcadismo, deslocando para um plano mais individual e espontâneo a naturalidade, que na geração anterior ainda é quase acadêmica." Assim, Cláudio nem combatia nem rejeitava essas manifestações, espontâneas e inovadoras. "Pelo contrário, emenda os versos do amigo, certamente entusiasmado e rejuvenescido pelo seu cristalino frescor; e, quem sabe, sentindo neles a conseqüência natural da reforma que ajudara a empreender, trinta anos antes, em busca da naturalidade."



A "prisão brutal e injusta" contribuiu, igualmente, conforme Rodrigues Lapa, para novos acentos, singulares tonalidades da poesia gonzagueana: amargurado pela incompreensão e injustiça dos homens, a poesia de Gonzaga expressa a dura realidade circundante. Traduz o estado de espírito do tempo que passou na prisão. Para abrandar o seu martírio apenas uma realidade existe: a doce lembrança de Marília. Colocado face a face com a realidade brutal, ganha a sua poesia novos acentos, maior autenticidade, dissipando-se, em parte, aquele idealismo e convencionalismo dominante na Parte I. E assim, pelo tom confessional e plangente, pela presença de saudade, ganha a sua poesia maior dose de individualidade e naturalidade, podendo muitas liras ser arroladas no pré-romantismo, como estes versos da lira 2, (II):



"Eu tenho um coração maior que o mundo,

tu, formosa Marília, bem o sabes:

Um coração, e basta,

onde tu mesma cabes."



Nascido em Portugal (Porto), o luso-brasileiro Gonzaga não poderia ficar indiferente à paisagem brasileira. Na sua poesia, a natureza tem presença garantida, como já ressaltamos, desde a cor local da famosa lira 3, (III), até a visão que revela "um estado de alma", ainda de "inspiração puramente romântica" como se pode notar na lira 5, (I):



"Os sítios formosos,

que já me agradaram,

ah! não se mudaram;

mudaram-se os olhos,

de triste que estou.

São estes os sítios?

São estes, mas eu

o mesmo não sou.

Marilia, tu chamas!

Espera, que eu vou."



Ainda com relação ao estilo de Gonzaga, podemos notar a presença de alguns aspectos lingüísticos que sobressaem nas suas liras, como a predileção por certas palavras ("beiço" para "lábios", "discurso" para "juízo", "inteligência" etc.); inversões ("são que os de Apolo mais belos"); a repetição de vocábulos, numa técnica superlativa sui-generis, como:



"Ah! enquanto os destinos impiedosos

não voltam contra nós a face irada,

façamos, sim, façamos, doce amada,

os nossos breves dias mais ditosos."



E assim em muitas outras passagens.





ESTRUTURA DAS LIRAS DE GONZAGA



Com relação à estrutura das liras gonzagueanas, podemos dizer que se distribuem por duas partes, visto ser a terceira constituída de composições que pertencem à primeira ou segunda partes, além de trazer outras espécies literárias que estão fora do objeto do nosso estudo: os sonetos e as odes.



Parte I. Na primeira parte (anterior à prisão) mostra-se o poeta cheio de esperanças, fazendo projetos conjugais, defendendo o ideal de vida burguês. De um modo geral, predomina o convencionalismo arcádico, embora possamos já constatar a presença de manifestações pré-românticas que se acentuarão na Parte II. Aí, com efeito, se constata mais intensamente a presença da mitologia, do bucolismo, da imitação, do racionalismo - postulados estéticos caracterizantemente arcádicos e neoclássicos. 



Nesta primeira fase, conforme Antônio Cândido, "denota preferência pelo verso leve, tratado com facilidade", como revela essa odezinha de sabor anacreôntico (I, 4):



"Se alguém te louvava, Se estavas alegre,

De gosto me enchia; Dirceu se alegrava;

Mas sempre o ciúme Se estavas sentida,

No rosto acendia Dirceu suspirava

Um vivo calor À força da dor.

Marília, escuta Marília, escuta

Um triste Pastor. Um triste Pastor."



Parte II. A segunda parte das liras traz a marca dos dias de masmorra, longe de sua pastora e de seu rebanho, curtindo a amargura da prisão. Daí o caráter nitidamente pré-romântico que perpassa as diversas liras que a constituem e que nos lembra Casimiro de Abreu, posteriormente, com sua poesia da saudade.



A dimensão onírica de que está impregnada esta segunda parte é outro elemento decisivamente pré-romântico: o poeta vive de sonhos ou do tempo passado. Veja-se neste sentido a lira 9, onde conclui o poeta:



"Assim vivia...

Hoje os suspiros

O canto mudo;

Assim, Marília,

Se acaba tudo."



É curioso observar na Parte II o emprego do verbo no passado: o poeta vive de lembranças e recordações passadas. A realidade que o cerca é o mal presente. É interessante observar, neste sentido, a lira 15, onde o poeta revive o mesmo ambiente bucólico que envolve a lira 1, (I) - do bem passado. Mas note-se que o poeta jamais perde a esperança de rever Marília, de reconstruir tudo - porque crê na sua inocência:



"Ah! minha Bela; se a Fortuna volta,

Se o bem, que já perdi, alcanço, e provo;

Por essas brancas mãos, por essa faces

Te juro renascer um homem novo;

Romper a nuvem, que os meus olhos cerra,

Amar no Céu a Jove, e a ti na terra."



Enfim, é ocioso ressaltar as recordações do bem passado e a brutal realidade do mal presente. As primeiras, o poeta as revive oniricamente, a segunda, embora sempre esperançoso, levava o poeta, muitas vezes, à revolta (II, 16):



"A quanto chega

A pena forte!

Pesa-me a vida,

Desejo a morte,

A Jove acuso,

Maldigo a sorte,

Trato a Cupido

Por um traidor.

Eu já não sofro

A viva dor."



Do ponto de vista técnico, é preciso que se ressalte aqui também a estrutura métrica das liras. Conforme observa Cavalcânti Proença, "a versificação é pouco variada e, a par dos versos de quatro sílabas, melhor ditos células métricas, vêm a redondilha menor, com acentuação na 2.ª e 5ª sílabas; o heróico quebrado, sempre em combinação; a redondilha maior; o decassílabo."



Assim, exemplificando, temos:



a) tetrassílabo (quatro sílabas):

"A/mi/nha a/ma/da

É/mais/for/mo/sa,

Que/bran/co/lí/rio

Do/bra/da/ro/sa"



b) pentassílabo ou redondilha menor (cinco sílabas):

"Mal/vi/o/teu/ros/to,

O/san/gue/ge/lou/-se,

A/lín/gua/pren/deu/-se,

Tre/mi,/e/mu/dou/-se,

Das/fa/ces/a/cor"



c) heptassílabo ou redondilha maior (sete sílabas):

"Tem/re/don/da e/li/sa/tes/ta

Ar/que/a/das/so/bran/ce/lhas

A/voz/mei/ga a/vis/ta ho/nes/ta

E/seus/o/lhos/são/uns/sóis"



d) decassílabo (dez sílabas) com heróico quebrado ou hexassílabo (seis sílabas):

"É/cer/to/mi/nha a/ma/da/sim/é/cer/to

Qu'eu/as/pi/ra/va/va a/ser/de um/ce/tro/o/do/no;

Mas/es/te/gran/de im/pé/rio/que eu/fir/ma/va

Ti/nha em/teu/pei/to o/tro/no"





PRESENÇAS MARCANTES NAS LIRAS



Vamos tentar esboçar aqui o retrato e caracteres de algumas figuras que transparecem nas liras de Gonzaga, catalisadas pela pastora Marília (Maria Dorotéia Joaquina de Seixas) e o pastor Dirceu (Tomás Antônio Gonzaga), além de outro pastor Glauceste ou Alceste (Cláudio Manuel da Costa) que reponta aqui e ali nas liras, como já ressaltamos.



a) Maria Dorotéia Joaquina de Seixas (Marília). Já falamos de Marília ao longo deste comentário. Parece-nos que ficou claro o retrato de Marília (figura vaga, sem existência concreta - objeto ideal de poesia) e o de Maria Dorotéia (amada de Gonzaga, menininha de 17 anos que faz o poeta quarentão vibrar, como na Lira 14 (I)) e outras. Além de outras indicações, veja-se a lira 2 (I), que traça o perfil da amada do poeta.



b) Tomás Antônio Gonzaga (Dirceu). Sem dúvida, pode-se afirmar que as liras são a expressão do "eu" do poeta, onde se revela altivo e apaixonado. Fala com naturalidade e abundância da sua inteligência, posição social, prestígio, habilidades (cf. I, 1). Preocupa-se com a aparência física e a erosão da idade (cf. I, 14 e 18); com o conforto, futuro, planos, glória (cf. II, 15) etc. A esse propósito, Antônio Cândido observa que "talvez a circunstância de namorar uma adolescente rica (ele, pobre e quarentão) tenha exarcebado essa tendência, que seria além disso exibicionismo compreensível de homem apaixonado."



Por outro lado, impressionam a firmeza e a sabedoria reveladas nas liras da prisão: "nenhum momento de desmoralização ou renúncia; sempre a certeza da sua valia, a confiança nas próprias forças". É o pastor Dirceu que se "despastoraliza", tornando-se cada vez mais o poeta Tomás Antônio Gonzaga, que se exterioriza e que confia na sua inocência.



c) Cláudio Manuel da Costa (Glauceste ou Alceste). Já vimos a presença de Cláudio nas liras e a amizade que unia os dois poetas, em que se nota também a admiração que Gonzaga nutria pelo poeta mais velho. Outra referência a Cláudio pode-se ver na lira 7 (II), onde Gonzaga parece ignorar a prisão e morte do grande amigo.



d) Na lira 38 (II), onde Gonzaga faz a justificação da sua inocência, há uma alusão a Tiradentes, cabeça da conjuração, que era tido por todos como alucinado:



"Ama a gente assisada

A honra, a vida, o cabedal tão pouco,

Que ponha uma ação destas

Nas mãos dum pobre, sem respeito e louco?"



A lira 23 (II) é um elogio ao Visconde de Barbacena, governador de Minas, destinada a captar-lhe a benevolência. O visconde foi quem mandou prender Gonzaga mas fora-lhe um dos amigos mais caros.



PROF. TEOTÔNIO MARQUES FILHO
















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ARCADISMO: a palavra arcádia, que dá origem a Arcadismo, é grega e designa uma sociedade literária típica da última fase do Classicismo, cujos membros adotam nomes poéticos pastoris, em homenagem à vida simples dos pastores, em comunhão com a natureza. 

O Arcadismo quanto à forma 

vocabulário simples 
frases na ordem direta 
ausência quase totral de figuras de linguagem 
manutenção de versos decassílabos, do soneto e de outrass formas clássicas 
O Arcadismo quanto ao conteúdo 

pastoralismo 
bucolismo 
fugere urbem 
aurea mediocritas 
elemento da cultura greco-latina 
convencionalismo amoroso 
idealização amorosa 
racionalismo 
iIdéias iluministas 
carpe diem 
Cronologia 

Início do Arcadismo no Brasil: 1768 – publicação das Obras Poéticas de Cláudio Manuel da Costa 

Término: 1836 – publicação de Suspiros Poéticos e Saudades, de Gonçalves Magalhães. 

Biografia do autor 

Embora português de nascimento, Tomás Antônio Gonzaga viveu no Brasil parte de sua infância. De volta a Portugal, formou-se em Coimbra, mas a partir de 1782 passou a exercer em Vila Rica o cargo de ouvidor. 

Aos 40 anos de idade praticamente, Gonzaga apaixonou-se por uma adolescente de 17 – Maria Dorotéia Joaquina de Seixas. A família da moça opunha-se ao namoro. Quando o poeta já vencia a resistência da família, foi preso (17898) e enviado para a ilha das Cobras, no Rio de Janeiro, como participante da Inconfidência Mineira. Os últimos dezessete anos de sua vida passou-os no degredo, em Moçambique, casado com a filha de um comerciante de escravos. 

Gonzaga nunca se casou com Maria Dorotéia, mas esse namoro tornou-se o primeiro mito amoroso de nossa literatura e inspirou uma de nossas mais belas obras líricas. 

Tomás Antônio Gonzaga (Dirceu) 

1744-1810 

Obras: 

Marília de Dirceu 

Cartas Chilenas (principal obra satírica do século XVIII, atribuída a Gonzaga) 

Duas tendências coexistem nas liras de Gonzaga: 

a) a contenção e o equilíbrio neoclássicos, com a utilização de todos os lugares-comuns do Arcadismo: um pastor, uma pastora, o campo, a serenidade da paisagem principal. 

b) o emocionalismo pré-romântico, na expressão pungente da crise amorosa e, posteriormente a prisão, da crise existencial do poeta. 

O sujeito lírico é o pastor Dirceu, que confessa seu amor pela pastora Marília. Eis a convenção neoclássica realizada, Mas é evidente que nos pastores se projeta o drama amoroso vivido por Gonzaga e Maria Dorotéia. 

A todo momento a 0emoção rompe o véu da estilização arcádica, brotando, dessa tensão, uma poesia de alta qualidade. 

“ Eu tenho um coração maior que o mundo 

tu, formosa Marília, bem o sabes; 

um coração, e basta, 

onde tu mesma cabes” 

As partes da obra 

A obra se divide em duas partes (há uma terceira, cuja autenticidade é contestada por alguns críticos): 

1ª parte: contém os poemas escritos na época anterior à prisão de Gonzaga. Nela predominam as composições convencionais: o pastor Dirceu celebra a beleza de Marília em pequenas odes anacreônticas. Em algumas liras, entretanto, as convenções mal disfarçam a confissão amorosa do amor: a ansiedade de um quarentão apaixonado por uma adolescente; a necessidade de mostrar que não é um qualquer e que merece sua amada; os projetos de uma sossegada vida futura, rodeado de filhos e bem cuidado por suas mulher etc. 

2ª parte: escrita na prisão da ilha das Cobras. Os poemas exprimem a solidão de Dirceu, saudoso de Marília. Nesta segunda parte, encontramos a melhor poesia de Gonzaga. As convenções, embora ainda presentes, não sustentam o equilíbrio neoclássico. O tom confessional e o pessimismo prenunciam o emocionalismo romântico.. 

Visite :: Obra comnpleta  
http://www.cce.ufsc.br/~nupill/literatura/literat.html 

Alguns poemas http://www.secrel.com.br/jpoesia/tomaz.html 

 

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