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Broquéis - Cruz e Souza

                               

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Broquéis - Cruz e Souza

Broquéis é a obra que inaugura, em 1893, o Simbolismo no Brasil. Seu autor, Cruz e Sousa, está entre os quatro melhores simbolistas da literatura universal, o que já pode ser percebido no livro em questão.

 Poeta capaz de realizar vôos tão altos quanto os mestres franceses, considerado até descendente de Baudelaire e de seu satanismo, esteve sempre marcado pelo estigma da dor do emparedamento, o que o fez ansiar desesperadamente por libertação. Esse desejo torna inteligível sua obsessão por imagens brancas; no mínimo, é uma explicação menos simplista do que uma outra, mais antiga, que tenta enxergar um poeta negro rejeitando a sua cor. Acreditar nesta tese é esquecer a primeira das três fases de sua obra, em que tematizou a dor de ser negro, por meio de poemas sob a influência do Castro Alves abolicionista. 

Mas o Cisne Negro, como é chamado, busca sempre as alturas, por isso se liberta da fronteira da pele e sente uma dor mais ampla: a de ser Homem. Raça, religião, pátria são questões insignificantes agora, já que se tornou o vate do gênero humano e de seu sofrimento. Essa é a fase inaugurada com Broquéis (no entanto, sua melhor fase é a terceira, em que se liberta da parede da carne e busca tematizar a dor de ser alma. Nesse estágio, passa a aceitar tal agonia como elemento importante, necessário para seu engrandecimento). Sua grandiosidade já se vê presente no primeiro poema, transcrito abaixo.



ANTÍFONA


Ó Formas alvas, brancas, Formas claras 

De luares, de neves, de neblinas! 

Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas... 

Incensos dos turíbulos das aras 



Formas do Amor, constelarmente puras, 

De Virgens e de Santas vaporosas... 

Brilhos errantes, mádidas frescuras 

E dolências de lírios e de rosas ... 



Indefiníveis músicas supremas, 

Harmonias da Cor e do Perfume... 

Horas do Ocaso, trêmulas, extremas, 

Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume... 



Visões, salmos e cânticos serenos, 

Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes... 

Dormências de volúpicos venenos 

Sutis e suaves, mórbidos, radiantes ... 



Infinitos espíritos dispersos, 

Inefáveis, edênicos, aéreos, 

Fecundai o Mistério destes versos 

Com a chama ideal de todos os mistérios. 



Do Sonho as mais azuis diafaneidades 

Que fuljam, que na Estrofe se levantem 

E as emoções, todas as castidades 

Da alma do Verso, pelos versos cantem. 



Que o pólen de ouro dos mais finos astros 

Fecunde e inflame a rima clara e ardente... 

Que brilhe a correção dos alabastros 

Sonoramente, luminosamente. 



Forças originais, essência, graça 

De carnes de mulher, delicadezas... 

Todo esse eflúvio que por ondas passa 

Do Éter nas róseas e áureas correntezas... 



Cristais diluídos de clarões alacres, 

Desejos, vibrações, ânsias, alentos 

Fulvas vitórias, triunfamentos acres, 

Os mais estranhos estremecimentos... 



Flores negras do tédio e flores vagas 

De amores vãos, tantálicos, doentios... 

Fundas vermelhidões de velhas chagas 

Em sangue, abertas, escorrendo em rios... 



Tudo! vivo e nervoso e quente e forte, 

Nos turbilhões quiméricos do Sonho, 

Passe, cantando, ante o perfil medonho 

E o tropel cabalístico da Morte... 



Para fluir esse grandioso poema, o leitor deve deixar de lado qualquer tentativa de entendê-lo e apenas liberar o inconsciente – exatamente o grande postulado dos simbolistas. Mesmo que teime em entendê-lo, não irá conseguir muito, tal a profusão de imagens herméticas, ou seja, de difícil compreensão, que há nele. O máximo que se obterá será entender “Antífona” como uma invocação a formas para que fecundem o mistério dos versos do poeta. É, portanto, um manifesto simbolista ou até mesmo uma profissão de fé da escola. 

Mas o que vale notar é a musicalidade expressiva, tanto na aliteração do /s/ quanto no predomínio de inúmeras palavras cujas sílabas tônicas tenham vogais extensas (“formas”, “alvas”, “claras”, “luares”). Há a recriação de um canto religioso (católico, budista, hindu, tanto faz, todos alongam vogais), reforçando o clima do poema anunciado pelo título (antífona é um curto versículo recitado ou cantado pelo celebrante, antes e depois de um salmo, e ao qual respondem alternadamente duas metades do coro) e por vários vocábulos como “santa”, “virgem”, “incensos”, “turíbulos”, “aras”, “réquiem”. 

O mais incrível é que essa religiosidade acaba-se misturando a imagens eróticas como “volúpicos venenos”, ”carnes de mulher”. É o lado maldito de Cruz e Sousa manifestando-se, também visto no poema abaixo.



DILACERAÇÕES


Ó carnes que eu amei sangrentamente, 

ó volúpias letais e dolorosas, 

essências de heliotropos e de rosas 

de essência morna, tropical, dolente... 



Carnes, virgens e tépidas do Oriente 

do Sonho e das Estrelas fabulosas, 

carnes acerbas e maravilhosas, 

tentadoras do sol intensamente... 



Passai, dilaceradas pelos zelos, 

através dos profundos pesadelos 

que me apunhalam de mortais horrores... 



Passai, passai, desfeitas em tormentos, 

em lágrimas, em prantos, em lamentos 

em ais, em luto, em convulsões, em dores...



Esse soneto é um belo e típico exemplo do erotismo maldito de Cruz e Sousa. Note que ele faz, na primeira estrofe, uma invocação, ainda que vaga, a carnes que amou “sangrentamente”. Se unirmos essa idéia ao título do poema e aos sinônimos em gradação da última estrofe, descobriremos uma mistura entre amor e dor, sofrimento. Estaria o poeta expressando seus impulsos sádicos? Ou estaria relatando a perda da virgindade? Difícil descobrir, já que se assume aqui o típico tom impreciso, vago dos simbolistas. 

Mais marcante do que esse soneto, no campo amoroso, é o exemplo a seguir.



LÉSBIA


Cróton selvagem, tinhorão lascivo,

Planta mortal, carnívora, sangrenta,

Da tua carne báquica rebenta

A vermelha explosão de um sangue vivo.



Nesse lábio mordente e convulsivo,

Rir, ri risadas de expressão violenta

O Amor, trágico e triste, e passa, lenta,

A morte, o espasmo gélido, aflitivo...



Lésbia nervosa, fascinante e doente,

Cruel e demoníaca serpente

Das flamejantes atrações do gozo.



Dos teus seios acídulos, amargos,

Fluem capros aromas e os tetargos,

Os ópios de um luar tuberculoso...



Antes de mais nada, deve-se explicar que Lésbia é mulher que se entrega aos prazeres carnais. O título desse soneto, portanto, já anuncia o erotismo maldito que se verá. Note, pois, a aliteração, na primeira estrofe, de /c/, /t/, /p/, /b/, /l/, somada às imagens ligadas ao vermelho (a associação de cores e vogais a idéias era o que os simbolistas chamavam de Lei das Correspondências), tudo formando um conjunto de elementos a sugerir o orgasmo explodindo pela pele da amada, o que é aludido também no verso 5. No entanto, o eu-lírico não perde o fôlego e continua seu espetáculo escandaloso, informando que, no clímax sexual, vê na parceira o Amor e a Morte (Eros e Tanatos), para depois chamá-la de serpente demoníaca e ainda dizer que seus seios exalam “capros aromas”, tornando-a maligna. Lembre-se de que “capros” é adjetivo que faz referência a bode, animal que na mitologia cristã representa o demônio. Assim, a amada do eu-lírico é mais uma entidade, no caso demoníaca, do que uma mulher real, de carne e osso. Aliás, um procedimento muito comum em Cruz e Sousa. Em suma, esse poema é uma jóia rara de nossa literatura.

Enfim, Cruz e Sousa produz poesia do mais alto nível, expressando a dor humana de forma grandiosa e sinfônica, encontrando ecos raros em nossa língua. Chega-lhe perto um Augusto dos Anjos ou então um Antero de Quental. Merece, portanto, o máximo respeito no quadro de nossos literatos.

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