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É
sempre bom ter recursos para crescer e realizar sonhos.
Recursos financeiros, bons relacionamentos ou exposição
a experiências interessantes são o desejo da maioria das
pessoas. Acredita-se que, quanto mais recursos dispomos,
maiores serão as chances de obtermos sucesso em nossos
empreendimentos.
Famílias de todas as classes sociais lutam para usufruir
do que existe de melhor em educação para seus filhos.
Visam o êxito desse jovem na vida adulta e,
consequentemente, no mercado de trabalho. Entretanto,
desobedecendo a lógica, é notável a quantidade de
profissionais que, mesmo com tanto investimento, têm
dificuldade de adaptação. Muitos nem sempre conseguem
ingressar no mercado.
Apesar das escolas e faculdades de primeira linha,
viagens, intercâmbio, cursos de idiomas, escolas
bilíngües e, até mesmo, o carinho dos pais, não
conseguem desenvolver uma carreira gratificante. É
surpreendente presenciar um jovem que, apesar de tantos
investimentos, não é capaz de alavancar seu próprio
caminho. Ainda mais quando são filhos de adultos bem
estabelecidos que ocupam posições de destaque e
liderança em suas profissões.
Os jovens aos quais me refiro não são delinqüentes. São
excelentes filhos. Não dão trabalho. Obedientes,
educados, cumpriram tudo o que foi sugerido. Lição de
casa, natação, inglês, ballet, judô e tudo mais.
Contrariando preconceitos, tão pouco são alienados.
Entendem o contraste social em que vivem. Mesmo assim,
frustram prerrogativas.
São inseguros, apáticos, teóricos e sem forças para
persistir em qualquer iniciativa. Vivem a angústia de
saber que foram preparados com o que existe de melhor.
Ressentem-se por não conseguir crescer com autonomia e
motivação. Será medo de fracassar? Será que, acostumados
a testemunhar e usufruir o prestígio e o padrão de vida
de seus pais, assumem o status da família como patamar
mínimo de sucesso? Por isso, não sabem por onde começar?
Em alguns casos, sim. Se verdadeiro, esse equívoco
bloqueia qualquer chance de desenvolvimento individual.
O cenário piora à medida que pais orgulhosos de si
mesmos, tentam reproduzir seu estilo através do filho.
Incapazes de lidar com o fracasso, enxergam no
adolescente, inexperiente e imaturo, uma ameaça à
própria imagem. Abafam as iniciativas. Tradicionais, são
avessos às novas idéias. Exigem atitudes e decisões além
do que é possível para qualquer novato. Esquecem da
própria juventude, dos erros que tiveram a oportunidade
de cometer.
Do outro lado, estão esses filhos que amam e reconhecem
seus pais como modelos. Ao contrário de se rebelarem,
empenham-se em atender a essas expectativas, muitas
vezes, absurdas. Perdem-se entre o que são e o que
acreditam que deveriam ser. Deixam de construir suas
opiniões para tentar descobrir o que seus pais fariam.
Ignoram a satisfação de aprender que o erro é parte da
vida, passível de conserto.
Paralíticos, não pagam seus preços. Dependem da
intervenção da família. O caminho para o amadurecimento
é trabalhoso. É preciso diferenciar-se da família de
origem. Suportar a pressão, consequências e até a falta
de apoio decorrentes de eventuais discordâncias. O que
muitas vezes complica, é que essa nova postura impacta a
todos. Abala a hierarquia familiar. Pais acostumados a
serem o centro da família questionam. Não raro, rogam
pragas com profecias assustadoras. Em nome do medo ou de
uma vida harmoniosa, muitos desistem. Abandonam o que
menos acreditam: a si mesmos.
Consciência e auto-conhecimento. Ainda são os melhores
remédios. Afinal, divergências, conflitos de interesses
ou opiniões sempre existirão. Em nome do respeito mútuo,
os momentos de ruptura são inevitáveis. Isso não
implica, necessariamente, em afastamento. É um marco na
vida em familia. O vínculo entre pais e filhos evolui
para uma relação civilizada entre adultos. Amplia-se a
noção de privacidade. O processo pode ser gratificante
quando sabemos que não existe crescimento sem
rompimento. Como a própria natureza nos ensina, a
semente deve romper a terra para mundo que fruto
oferece.
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