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"Não
quero continuar a faculdade." O que fazer? As motivações
que justificam essa constatação podem ser reais,
equivocadas ou impulsivas. Preocupados, familiares e
amigos evitam apoiar a evasão do curso. A maioria
incentiva a continuidade, mesmo que a profissão seja
abandonada no futuro.
Por que é difícil ser assertivo, respeitar as próprias
conclusões? Atender aos próprios anseios deveria ser uma
alegria. Livre arbítrio. Por que em vez de nos sentirmos
incentivados, ficamos desamparados? Medo das
consequências? Queremos ganhar sempre? Evitamos o lado
ruim da escolha? Pode ser, mas isso é tudo? Ou será que
nosso arbítrio não é tão livre assim?
Retoricamente, somos livres para optar. Na prática, não
temos tanto campo para escolher quanto pensamos. Para o
psicólogo Bohoslasvsky, ao decidirmos por algo,
realizamos o exercício da conciliação. Mediamos desejos
com possibilidades, opiniões famíliares, sociais ou
qualquer critério que nos seja importante. Algumas
pessoas, submissas nessa batalha, quase esquecem o que
realmente sentem. Evitam fugir de determinados padrões
considerados normais.
Cursar a universidade é o passo esperado ao final do
ensino médio. Desistir é uma dessas situações que fogem
à expectativa. Afronta o valor da perseverança que,
subliminarmente, é superior à vontade pessoal.
Internamente, sabemos que rejeitar algo é um sentimento
legítimo. Deveria ser respeitado. Entretanto rechaçar o
que não é crime, falha moral ou ética nem sempre é bem
visto. Pior ainda quando se abre mão de um curso
superior, objeto de desejo de muitos e privilégio de
poucos.
Aprendemos que desistências denotam fraqueza. O ditado
ensina: mais vale um pássaro na mão do que dois voando?.
Quem ousa contrariar? Mesmo conscientes, ressentimos
desobedecer a regra. Insegurança, culpa, fantasias de
punição e auto-críticas emergem boicotando as chances de
sucesso no novo caminho.
Por essa razão, o maior desafio ao abandonar os estudos,
não é apenas saber se a decisão é certa. O maior
obstáculo consiste em lidar com fantasmas como vergonha,
medo de ser fraco, imaturo ou imprudente. Com o pavor de
ser punido por esnobar uma realização. É difícil abrir
mão do tal pássaro do ditado.
Entretanto é importante saber que esses fantasmas não
atormentam apenas aqueles que de fato desistem. Toda a
escolha pressupõe o abandono de projetos secundários.
Perdemos os benefícios que as outras possibilidades
ofereceriam. As alternativas preteridas permanecem no
imaginário, idealizadas. Divididos, muitos continuam
sonhando com os passos não concretizados. Não são
desistentes formais, mas são profissionais
desconcentrados, perturbados pela dúvida sobre estar ou
não no lugar certo. Nesse caso, persistir acarreta no
mesmo sofrimento. Não adianta tentar se enganar.
Ficar ou mudar é uma decisão prática, pessoal. Seja qual
for a resolução, as chances de sucesso só existem quando
se assimila que, além dos benefícios, as escolhas nos
limitam. Não existem garantias em nenhum caminho. Todos
os projetos dependem de empenho e envolvimento.
Quem consegue lidar com essa realidade ganha foco.
Amplia a disposição para estudar e trabalhar. Aceita,
com naturalidade correções de rota como parte da vida e
não erros. Prejuízos e atrasos são o preço a ser pago em
nome do que estão construindo. São acertos que só
pessoas lúcidas praticam.
Não existe uma resposta certa. O que deve existir é o
compromisso consigo mesmo para bancar suas decisões.
Como na reflexão de Antonio Machado: ?Caminhante, suas
pegadas são seu caminho e nada mais. Caminhante, não há
caminhos; faz-se o caminho ao andar?. Vale acrescentar,
caminhante por onde for, que esse caminho seja trilhado
com ambos os pés firmes na estrada.
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