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Enem e suas facetas: ainda longe do ideal
  


Quer passar no Enem? Veja este artigo de alerta!
 

 

Quando pensamos no Enem, muitas vezes deixamos de considerar suas três facetas distintas, que possivelmente não deveriam estar agregadas, e que tem apresentado desempenhos diferentes: o Enem como prova de acesso às instituições universitárias; o Enem como parte integrante de uma política pública de ingresso ao ensino superior via bolsas de estudo como Prouni ou de financiamento como FIES; o Enem como parte no sistema de avaliação do ensino médio nacional.

Como processo seletivo, as provas do Enem tem apresentado razoável qualidade pedagógica, propondo questões interessantes que fogem da valorização excessiva do conhecimento meramente decorado. A logística de aplicação, no entanto, tem deixado muito a desejar, devido em parte à sua própria magnitude, e em parte à inexperiência e atropelo eleitoreiro que norteiam sua implantação.

Já como política de acesso, o resultado do Enem deveria, em princípio, propiciar que alunos de baixa renda pudessem cursar boas escolas, sejam elas públicas ou privadas, pois bolsas de estudo ou financiamento a juros baixos são oferecidas aos alunos que atingem boa colocação, permitindo que o país dê chances reais aqueles jovens dedicados aos estudos.

No entanto, recentes pesquisas têm mostrado que a inclusão ainda é relativamente baixa, pois o aluno realmente carente dificilmente terá um desempenho no exame que possibilite a participação nesses programas. Talvez o processo de inclusão deva começar com um programa amplo e ambicioso de melhoria de qualidade do ensino fundamental e médio, complementado por uma política de permanência, pois cursar uma faculdade implica em gastos com materiais didáticos, transporte, alimentação e, em grande parte dos casos, impossibilidade de trabalhar em período integral.

Mas é como sistema de avaliação do ensino médio que o Enem tem tropeçado mais. Jamais obteve consenso entre os especialistas da educação, pois vários fatores interferem num processo avaliativo de alcance nacional, como as gritantes diferenças de disponibilidade de docentes qualificados nos vários estados da federação, e a absurda diferença na infraestrutura voltada ao ensino entre as escolas privadas e públicas, já que muitas destas últimas sequer contam com uma verdadeira biblioteca, ou laboratórios adequados para disciplinas que os requerem.

Existe ainda o que é chamado de “efeito escola”, ou seja, o conhecimento efetivamente agregado ao aluno pela instituição, durante a sua permanência nela. Melhores condições de partida, como maior acesso a bens culturais na família, tenderão a proporcionar melhores condições de chegada à formatura, com menor esforço da escola. O jovem que não dispõe dessa sorte, demandará maior empenho.

Evidentemente, quando comparamos o resultado final unicamente levando em conta o critério da “nota” do aluno na saída, as escolas que atendem aos de condições iniciais privilegiadas, serão mais bem avaliadas do que aquelas que recebem ingressantes em condições não tão boas, embora estas possam ter proporcionado a seus discentes uma melhora relativa muito maior.

Assim, são muitos os aspectos a serem analisados para uma compreensão real do sistema educacional brasileiro. Comparar resultados de dois dias de provas – com o consequente cansaço e desgaste gerado – entre escolas de diferentes regiões, diferentes níveis sociais e econômicos e diferenças culturais extremas - não tem mostrado ser eficiente para a correção de rumo necessária para tornar a educação brasileira melhor e mais competitiva.

Apesar disso tudo, e das recentes notícias sobre vazamento de questões da prova, o Enem continua sendo uma boa iniciativa para a melhoria do sistema educacional. Mais profissionalismo e amadurecimento certamente contribuiriam para o aperfeiçoamento do processo.

Wanda Camargo – educadora e presidente da Comissão do Processo Seletivo – Faculdades Integradas do Brasil – UniBrasil.




 

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